A dona do sabre

Paulistana nascida na Bielorrússia, Karina Lakerbai venceu nove dos últimos dez campeonatos brasileiros de esgrima.

por Luiz Humberto Monteiro Pereira
humberto@esportedefato.com.br

Entrevista com a esgrimista Karina Lakerbai – Foto: arquivo pessoal

Filha de uma ginasta e de um mestre de armas, Karina Lakerbai nasceu na Bielorrússia, mas mudou-se para a capital paulista com a família aos 6 anos de idade. “Minha mãe foi chamada para treinar a equipe de ginástica artística da academia Yashi e veio para o Brasil. Gostaram dela e pediram que continuasse depois dos seis meses acordados. E ela disse que tinha marido e filha. Viemos, gostamos e logo meu pai já estava dando aula na Federação Paulista de Esgrima”, relembra. Embora tenha nascido dois anos depois do acidente nuclear de Chernobyl, numa cidade distante 300 quilômetros da usina ucraniana que explodiu em abril de 1986, Karina sofreu efeitos da radiação. “Tenho osteocondromas, calcificações ósseas a mais. Isso me custou algum tempo longe do esporte para duas cirurgias ligadas à retirada de calcificações que impactavam diretamente meu desempenho no esporte”, explica a esgrimista, que foi campeã brasileira de sabre por oito anos consecutivos, de 2007 a 2014.

Depois de uma medalha de bronze na competição em 2015, voltou a ser campeã em 2016 – mas uma contusão na época das seletivas a deixou fora dos Jogos Rio 2016. Agora se prepara para o Campeonato Brasileiro de Esgrima de 2017, que será disputado de 16 a 19 de novembro, em Porto Alegre. “Se nenhuma surpresa acontecer, estou perto de me classificar para os Jogos Odesur 2018, em maio, em Cochabamba, na Bolívia”, comemora a socióloga de 28 anos, formada pela Unifesp, que se divide entre o trabalho no mundo corporativo e a vida de atleta.

A esgrima é um dos poucos esportes em que o seu físico e juventude não decidem seus resultados.

Esporte de Fato – Como a esgrima surgiu na sua vida?
Karina Lakerbai – Eu pratiquei vários esportes. Comecei fazendo ginástica artística na academia onde minha mãe da aula e, depois, fiz tênis. Nas duas modalidades, eu competia nos campeonatos paulistas e brasileiros. No entanto, me destacava mais na ginástica. Minha mãe pediu que eu seguisse para outro esporte porque nunca tive o biótipo de ginasta, o que impactava na quantidade de lesões que tinha. Foi bem frustrante e fiquei quase meio ano sem conseguir fazer nenhum outro esporte, de birra mesmo, com meus 11 anos. Mas eu fiquei insuportável. A vida toda fiz esportes e não fazer me privava da adrenalina que senti a vida toda. Até que comecei a ir para o treino com o meu pai, adorava o pessoal da esgrima e comecei a ir só para vê-los. Comecei a competir e a ganhar. Gostando de ganhar, continuei no esporte até entender quão fascinante ele é.

Esporte de Fato – E qual é o maior atrativo da esgrima?
Karina Lakerbai – A esgrima é um dos poucos esportes em que o seu físico e juventude não decidem seus resultados. É um esporte complexo, que exige preparação física, reflexos e boa base técnica. Mas você não será absolutamente ninguém sem um controle emocional muito bom e a capacidade de reorganizar sua estratégia do começo ao fim, em tempo recorde, para garantir a vitória. Meu pai costuma dizer que é um jogo de xadrez com músculos, e tem toda razão. Nada é o que parece, até que o jogo chega ao fim. Acho que os benefícios podem ser facilmente percebidos. A esgrima ajuda na vida e o conhecimento da vida ajuda na esgrima.

Esporte de Fato – Quais foram seus resultados mais expressivos?
Karina Lakerbai – Ganhei mais de 11 Campeonatos Brasileiros, liderei o ranking nacional por mais de 8 anos (não consecutivos) e ainda o lidero. Fui ouro nos Jogos Sul-Americanos de 2014, no Chile. Em 2011, na Itália, tive a melhor colocação do sabre feminino brasileiro no Campeonato Mundial de Esgrima em toda a história, ficando em vigésimo-terceiro. Fui eliminada pela bicampeã olímpica, a americana Mariel Zagunis.

Esporte de Fato – Como o sabre se diferencia do florete e da espada?
Karina Lakerbai – O sabre é uma arma que se pode usar tanto a ponta quanto toda sua extensão para tocar o adversário da cintura para cima. É de longe é a mais rápida das armas, inclusive por conta disso é a favorita dos canais midiáticos. Mesmo com as convenções pouco claras para os de fora, em relação a direitos de ataque de cada esgrimista, o dinamismo conquista.

Os locais de treinamento estão se articulando melhor para promover a esgrima.

Esporte de Fato – Como vê a esgrima no Brasil hoje?
Karina Lakerbai – A partir do ciclo olímpico de 2012, os atletas que estavam na liderança do ranking passaram a ter investimentos maiores e equipes mais estruturadas para o desenvolvimento, que nos trouxe grandes benefícios, resultados e medalhas. Mas não temos mais um patrocinador desde o final dos Jogos Rio 2016. Agora é o momento de valorizar os jovens atletas que apareceram nesse período. Por outro lado, o protagonismo dos clubes e academias com seus praticantes está tomando a frente desse movimento. Os locais de treinamento estão se articulando melhor para promover a esgrima. Cursos de arbitragem para maior legitimidade e transparência estão sendo realizados em diferentes estados. E o que antes era bem centralizado, começou a descentralizar. Teremos novos técnicos para incentivar a abertura de novos espaços com esgrima. E gente interessada não falta, assim como ex-atletas desse período abastado que gostariam de continuar no esporte, agora como técnicos.

Esporte de Fato – Além da esgrima, quais são suas atividades?
Karina Lakerbai – Trabalho na Responsabilidade Social da Kroton Educacional desde 2016. Sou apaixonada por cachorros e criei um grupo que se chama Valorizando Patinhas, que cuida de cães de rua. Se não estou trabalhando ou treinando, estou competindo, arbitrando competição, cuidando de assuntos da Academia Paulista de Esgrima ou em Sorocaba, no curso de Mestres D’armas. Meu último vexame foi fazer um casal de amigos ter que remarcar a data do casamento civil no cartório porque eu não tinha nenhum final de semana sem esgrima do final de setembro até o meio de novembro, e eu sou a testemunha já registrada no cartório. Que situação, né?

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