Eduardo Collier

Por Teresa Botelho

Eduardo Collier é brasileiro e mora no Canadá desde 1999. Trabalha para o Ministério de Global Affairs Canada em Ottawa e acaba de voltar de uma temporada no Afeganistão onde trabalhou como Primeiro Secretário e Cônsul na Embaixada do Canadá e aqui compartilha essa experiência com WAVE e a comunidade brasileira.

WAVE – Antes de conversarmos sobre a sua experiência no Afeganistão, nos fale um pouquinho sobre você e como foi a sua trajetória para chegar aqui no Canadá.
Collier – Eu nasci e fui criado em Recife, PE, até os 16 anos de idade. Sempre tive vontade de conhecer o mundo, então quando meus pais decidiram aplicar para imigrar ao Canadá, de alguma forma sabia que estava ali a minha oportunidade. Em
1998 conseguimos o visto para imigrarmos ao Canadá e em maio de 1999 nos mudamos para Ottawa. Lembro que no dia que chegamos fazia sol e a temperatura era de 17º C, mas estávamos todos morrendo de frio. Recifense sofre quando a temperatura cai abaixo de 21º C.

Admiro muito a coragem e a visão que meus pais tiveram para se desfazer de toda uma vida que eles tinham construído até o momento e deixar para trás suas famílias e parentes próximos, amigos e, suas carreiras no Brasil (meu pai Engenheiro Civil e minha mãe servidora pública do Tribunal de Contas de PE) para embarcar nessa aventura pensando primeiramente em oferecer um futuro com mais oportunidades para seus filhos.

WAVE – E como é que você foi parar no ministério de Global Affairs, Ottawa?
Collier – Viemos para Ottawa porque meus pais tinham amigos aqui que poderiam nos apoiar na nossa chegada. Eles nos ajudaram a alugar um apartamento, fazer matrícula na escola, nos levaram para conhecer a cidade, etc… Esse apoio inicial é essencial para qualquer imigrante e nos ajudou bastante.

Em 2007 me formei com ‘Honours’ em Ciências Políticas e Relações Internacionais pela Carleton University em Ottawa. Logo depois da minha graduação consegui uma posição como voluntário das Nações Unidas (UNV) no Nepal, onde participei da organização das eleições que estavam para acontecer, depois de anos de guerra civil naquele país.
Do Nepal fui para a Argentina com um programa para jovens canadenses patrocinado pelo governo federal que se chama International Youth Program. Esse programa oferece várias oportunidades remuneradas para jovens trabalharem em projetos de desenvolvimento pelo mundo afora. Foi nesse período que apliquei para um trabalho no Global Affairs mas, como o processo é demorado, continuei minha busca em querer sempre me capacitar e consegui, desde a Argentina, uma bolsa de estudos na Universidade de Torino (Itália) no Centro de Treinamento da Organização Mundial do Trabalho, onde fiz um mestrado em Management of Development e Project Management. Faltando apenas um mês para terminar o mestrado, me ofereceram um trabalho no Global Affairs onde exerci diferentes funções administrativas, enquanto tentava passar no concurso diplomático do Ministério, que era o meu foco principal.

Em 2014 passei no concurso e participei de um treinamento que durou dois anos que me proporcionou experiências de curta duração (2-3 meses) nas missões diplomáticas do Canadá na Ucrânia, Haiti, Estados Unidos e Grécia, antes de assumir a minha primeira missão oficial no Afeganistão.

WAVE – Agora nos fale então sobre a sua missão no Afeganistão e o seu papel enquanto Primeiro Secretário e Consul na Embaixada do Canadá em Cabul.
Collier – Não sei como funciona no serviço diplomático brasileiro, mas aqui no Canadá você pode escolher cinco (5) missões nas quais você gostaria de trabalhar e se submete a um processo seletivo. Eu só coloquei o Afeganistão na minha lista.
Estava a procura de uma experiência sem igual no serviço público. No meu papel de Primeiro Secretário (Management) e Cônsul exerci diversas funções. Temos vários projetos de longa duração sendo implementados no momento na área de infraestrutura e que eu gerenciei. Também atuei nas áreas de serviços consulares oferecendo assistência a cidadãos canadenses necessitando de apoio consular.   Também trabalhei na área de finanças, recursos humanos e de gestão de situações de emergência.  Foi uma experiência muito enriquecedora trabalhar num ambiente multicultural e com uma equipe multidisciplinar naquela parte do mundo.

Grande parte do meu trabalho dependia da situação de segurança na cidade, que era volátil e mudava constantemente, alterando assim meus planos. As prioridades mudavam da noite para o dia e eu nunca dormia e acordava com a mesma lista de projetos.

WAVE – E o país Afeganistão? Quais foram as suas impressões?
Collier – Antes de me candidatar para trabalhar em Kabul entrei em contato com várias pessoas que já haviam trabalhado lá na embaixada, na intenção de melhor me preparar para a nova experiência profissional mas, nada me preparou melhor do que a convivência diária naquele país. O primeiro aspecto onde sentimos uma grande mudança é no que diz respeito à perda de sua independência em se locomover. Por motivos de segurança, seus passos são estritamente monitorados e controlados pela equipe de segurança da embaixada e isso realmente precisa de um tempo para se adaptar.

Em relação as minhas impressões daquele país, fora os problemas que todo mundo já conhece, como as perturbações civis, terrorismo, poluição, etc… eu pude ver um outro lado dos afegãos que muita gente não conhece. Vi de perto a imensa generosidade deles, o senso de humor e a perseverança com a qual enfrentam os seus
problemas diários. Vi também como as mulheres afegãs são fortes e lutam pelos seus direitos em participar ativamente na sociedade, especialmente a nova geração. Um dos objetivos do Canadá no Afeganistão é de promover o direito das mulheres então sempre busquei incluí-las em meus projetos dando chance ao desenvolvimento de suas empresas e as ajudando a competir lado a lado com os homens. A determinação dessas mulheres de participar e contribuir foi o que mais me marcou.

WAVE – Teve a oportunidade de encontrar outros brasileiros por lá?
Collier – Infelizmente não tive a oportunidade de encontrar nenhum outro brasileiro por lá, mas conhecí pessoas de vários países que já tinham vivido e trabalhado no Brasil e que falavam um bom português, inclusive o nosso próprio embaixador. Tenho muito orgulho de ser brasileiro e não perco nunca a oportunidade de promover o nosso país, mesmo representando o Canadá. As pessoas sempre dão um sorriso extra quando digo que também sou brasileiro, já que o Brasil ainda detém uma imagem positiva no mundo. De um modo geral, acho que se identificar também como brasileiro sempre gerou um resultado positivo em todos os lugares por onde passei, pois há uma certa simpatia por nosso país.

WAVE – Gostaria de deixar aqui alguma mensagem, ou comentário para os nossos leitores?
Collier – O Canadá oferece imensa oportunidade para imigrantes de contribuir para o país trabalhando no serviço público. Existem diversos programas para aprender a segunda língua oficial, para obter experiência de trabalho e para jovens seguirem esse tipo de carreira. Não tenho a menor dúvida de que se tivesse imigrado para qualquer outro país não teria tido as mesmas oportunidades que me foram oferecidas aqui no Canada. Nós brasileiros temos a vantagem natural de sermos simpáticos, adaptáveis e trabalhadores, o que nos favorece ainda mais.

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