Museu do Café

Sabor do passado e presente em Santos, SP.Por Christian Pedersen
Fotos: Eric Major

Fachada do Museu do Café no Centro Histórico de Santos, São Paulo

Muita gente diz que o Brasil é um país sem memória e sem cultura, mas após visitar o Museu do Café, situado no centro antigo da cidade de Santos, litoral do estado de São Paulo, eu posso dizer que eles fazem um trabalho muito legal para transformar um espaço que um dia foi o edifício da Bolsa Oficial do Café em uma grande experiência sobre o passado sem esquecer o presente e mesmo o futuro.

O Museu do Café é um edifício com estilo arquitetônico eclético, cuja suntuosidade chama a atenção logo na sua fachada imponente. A propósito, o belo prédio foi tombado pelo município de Santos e também pelo Estado.  O Museu tem entre seus principais destaques telas e painéis de Benedicto Calixto e o Salão do Pregão – composto por uma mesa principal e setenta cadeiras para corretores – onde eram realizadas as negociações que determinavam as cotações diárias das sacas de café na época.

Uma rica história

O Salão do Pregão do Museu do Café

O negócio do café foi um dos grandes responsáveis pelo desenvolvimento da Região Sudeste do Brasil, tanto que se tornou a mais importante fonte de receitas do país e de divisas externas durante muitas décadas a partir da década de 1850. Para você ter uma ideia, em 1860, por exemplo, o Brasil, hoje maior produtor mundial, já era responsável por 60% da produção do café no mundo e o Rio de Janeiro por 90% da produção nacional. Hoje, Minas Gerais é o estado com maior produção de café, com 17% da produção mundial.

O sucesso da lavoura cafeeira em São Paulo, durante a primeira parte do século XX, fez com que o Estado se tornasse um dos mais ricos do país. O café era escoado das fazendas, secado, armazenado em sacas, e depois enviado ao Porto de Santos. Não é para menos que naquela cidade, em 1922, foi inaugurado o edifício da Bolsa Oficial do Café para centralizar, organizar e controlar as operações cafeeiras. Os pregões foram realizados ali até os anos 50, quando foram transferidos para São Paulo.

Experiência no presente para o futuro

Salão do Pregão visto do andar de cima

Criado em 1998, o Museu do Café é uma instituição da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo, com o objetivo de preservar a histórica relação entre o fruto do cafeeiro e o Brasil, e ainda ajudar a compreender a importância do edifício na época áurea do mercado cafeeiro.

Durante nossa visita, fomos bem acompanhados pelo Pedro Comin, educador do Museu, “diariamente, troco experiências com visitantes de todas as partes do mundo e tento deixá-los, pelo menos um pouco, mais questionadores referentes às temáticas aqui tratadas”, disse à Wave o jovem formado em jornalismo que trabalha ali desde 2014 e manda muito bem no inglês. Segundo ele, mostrar o Museu ao visitante significa “desconstruir, diariamente, a impressão que as pessoas possuem de que Museus tratam apenas de passado e mostrá-las que, em um espaço dinâmico como esse, pode-se ter uma experiência pessoal, questionar-se sobre o presente, projetar o futuro e construir saberes de diferentes formas”.

A cultura e a arte são transformadoras

Cena da mostra “Desconstruindo uma Epopeia”

Dentre as exposições em andamento está “Café, patrimônio cultural do Brasil: ciência, história e arte”, dividida em quatro módulos: Da planta à xícara, História do Café, Praça de Santos e Artes e Ofícios. A exibição apresenta diferentes perspectivas: científicas, históricas e arquitetônicas por meio de objetos, imagens, vídeos e mapas que contextualizam as particularidades da produção e comércio do grão ao longo da história até os dias atuais. “Hoje vejo o Museu como um ambiente onde todos os espaços se encaixam e conversam entre si”, diz Pedro.

Inaugurada em julho de 2016 e em cartaz até novembro de 2017, a mostra “Desconstruindo uma Epopeia” apresenta uma leitura crítica do vitral “A epopeia dos Bandeirantes”, de autoria do pintor paulista Benedicto Calixto, presente no Salão do Pregão. A mostra desfragmenta as informações contidas na peça em várias camadas, para proporcionar ao público a compreensão do processo de concepção por trás dessa obra. A experiência de ver e poder caminhar pelas partes desfragmentas da obra é algo muito interessante! Uma outra mostra apresenta ao público materiais publicitários de empresas de café veiculados no início do século XX.

Diferentes cafés do Centro de Preparação de Café

O barista Rodrigo José e o educador Pedro Comin no Centro de Preparação do Museu do Café em Santos, São Paulo.

Além disso, o Museu possui ainda um centro que conta com diversas publicações e documentos sobre o café e sua história em seu acervo e está aberto ao público para visitação gratuita, e o Centro de Preparação de Café, que disponibiliza cursos e oficinas relacionados ao conhecimento e ao preparo da bebida. Falando nisso, o Museu compartilhou com a Wave duas receitas de drinks com café preparadas por um de seus baristas.

Não podemos esquecer de mencionar a Cafeteria do Museu, que trabalha com os cafés Cerrado de Minas, Sul de Minas, Chapadão do Ferro, Alta Mogiana, Bourbon Amarelo, Bourbon Vermelho, Blend do Museu, Orgânico (sazonal), Premiado e Jacu Bird Coffee. Este último é o café mais caro e raro do Brasil, obtido com os grãos expelidos pelo pássaro Jacu, que se alimenta dos frutos do café. Sim, você leu certo, expelidos (este a gente não quis provar não!).

Enfim, o que parecia ser apenas uma visita a um edifício antigo onde ficava uma bolsa do café se transformou em uma bela experiência, onde passamos uma tarde super interessante e saímos felizes por termos ido até lá. Essa sensação bate com o que o Pedro nos disse: “…gostaria que todos que entrassem nesse espaço saíssem diferentes. A cultura e a arte são transformadoras. Portanto, se todos que conhecessem o Museu pudessem experimentar um pouco dessa transformação, eu já estaria realizado profissionalmente”. Pelo jeito ele conseguiu!

Para mais informações sobre o Museu, visite museudocafe.org.br

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