Brasileiros-Canadenses

Porque o Canadá se tornou a melhor opção para muitas famílias brasileiras.

Por Marta Almeida

Regina Filippov com os filhos Mike e Sandi que nasceram no Canadá

Nos 150 anos do Canadá, a questão da imigração é capítulo obrigatório na história deste imenso e generoso país. Construído com o suor de várias comunidades imigrantes, o Canadá tem orgulho de sua diversidade e reconhece, como poucas nações, a importância dos cidadãos que não nasceram aqui, mas consideram este o país do coração. Os brasileiros, claro, estão inseridos neste contexto, mesmo que em quantidade pequena ao se comparar com outras comunidades imigrantes. Hoje acredita-se que morem no Canadá pouco mais de 55 mil brasileiros, entre nascidos no Brasil e canadenses descendentes de brasileiros. A concentração maior é nas províncias de Quebec, Ontário e Colúmbia Britânica. Para marcar a comemoração dos 150 anos, a Wave Magazine faz um breve passeio por três das principais ondas migratórias de brasileiros para o Canadá, destacando famílias que estão completamente integradas ao ritmo de vida canadense e não trocam este país por nenhum outro.

Pioneiros

A neta Sofia faz com que a avó não pense mais em voltar para o Brasil.

Quem foram os primeiros brasileiros a imigrar para o Canadá? Numa comunidade onde ninguém sabe sequer ao certo quantos somos hoje, esta é uma pergunta difícil de responder. Não existem registros precisos da chegada dos primeiros brasileiros aqui, mas sabe-se que no final dos anos sessenta algumas famílias vieram por conta de contratos de trabalho na indústria da mineração. Porém, já naquela época, alguns imigrantes brasileiros trocaram os trópicos pelas terras geladas do Canadá porque queriam mais segurança e qualidade de vida.

Foi o caso de Regina Filippov, que chegou em 1968 e não por acaso é uma das fundadoras da Wave Magazine, a revista para a comunidade brasileira do Canadá mais antiga em circulação. Fluminense de Campos mas carioca de coração, mudou-se para Montreal depois de passar uma temporada na Austrália. “Saímos do Brasil na época da ditadura e o Canadá foi uma ótima opção devido à segurança pessoal e também de trabalho, coisa que não havia no Brasil nos anos 60,” diz Regina.

Depois de Montreal, mudou-se para Hamilton, Welland, Mississauga e finalmente Toronto, onde passou a ter mais contato com outros brasileiros. Quase 50 anos depois, com os dois filhos – Sandi e Mike – criados, dedica-se à única netinha. Sofia é a razão pela qual a vovó coruja nem pensa mais em voltar para o Brasil. Mesmo que a filha Sandi tenha decidido morar no Rio de Janeiro e o filho Mike viver dizendo que se pudesse morava lá, Regina, que já tentou morar no Brasil de novo uma vez, não hesita em afirmar: “Não me arrependo nem um pouco de ter escolhido o Canadá.”

“Boom” dos anos oitenta

Nilton Barbosa veio nos anos oitenta em busca de melhores condições de vida

Nos anos 80 o Brasil viveu uma de suas piores crises econômicas. Inflação na casa dos 80%, desemprego alto, salários baixos. Era difícil ter uma vida digna e construir um patrimônio no país. Os jovens viviam sem esperanças e para muitos, a luz no fim do túnel estava no aeroporto. Aviões lotados partiam para os Estados Unidos diariamente com homens e mulheres em busca do “eldorado” norte-americano. As exigências para o visto de turismo americano foram intensificadas e um grupo de mineiros da região do Vale do Aço, interior de Minas Gerais, descobriu um novo destino: o Canadá, que nem exigia visto de turista dos brasileiros!

Foi uma corrida contra o tempo.  Centenas de jovens deixaram suas famílias e desembarcaram em Toronto. Alguns do aeroporto mesmo, já orientados pelos amigos, seguiam direto para a imigração pedindo “refúgio econômico”. A quantidade de pedidos foi tão grande que o Canadá fechou suas portas: passou a exigir o visto de turista com muitos pedidos negados firmemente. Quem conseguiu entrar tratou de se adaptar à uma nova realidade: um país com cultura totalmente diferente, mas cheio de oportunidades. Muitos que não tinham a documentação, encontraram nos chamados “survive jobs” o ponto de partida. Na construção civil e limpeza os brasileiros conseguiram aos poucos se integrar ao Canadá.

Nilton Barbosa chegou em 1987. Solteiro, precisava ajudar a família no Brasil onde deixou mãe e irmãos pequenos. Passou horas sendo interrogado no aeroporto quando desembarcou, mas foi liberado. Sem inglês fluente, trabalhou como ajudante de carpinteiro com italianos e portugueses. Quando conseguiu a documentação arrumou um emprego mais estável numa construtura que faz obras para o governo. O frio de -30 graus foi o grande desafio: “É muito lindo de ver, mas não de enfrentar quando trabalhamos o dia todo na rua,” diz. O esforço valeu a pena e com apenas um ano de trabalho duro, conseguiu comprar uma casa para a mãe no Brasil. “Fiquei maravilhado com isso,” conta. Hoje, Nilton já está aposentado e tem a própria empresa de renovações. Casado com Glauciene, pai de Emily e William, não pensa mais em voltar. “Canada é meu país, o lugar onde tive grandes oportunidades de vida e trabalho e continuo tendo a cada dia. Tenho minha casa aqui, minha familia, meus filhos que são herança de Deus!”

Skilled Workers

O casal Cristiano e Aline conheceu o Canadá na lua de mel e gostou tanto que decidiu imigrar

Nos anos mais recentes, uma nova onda migratória de brasileiros para o Canadá trouxe  famílias aprovadas no processo de imigração feito ainda no Brasil. São os “Skilled workers”, profissionais com inglês fluente e experiência em áreas onde sobram empregos por falta de mão de obra qualificada. Aline e Cristiano se encaixaram neste perfil. Os dois passaram a lua de mel no Canadá e voltaram para o Brasil decididos a tentar obter o visto de residência.

Aline é gestora de eventos e turismóloga e Cristiano analista de suprimentos. Em apenas 11 meses conseguiram a documentação. Venderam tudo o que tinham e vieram para o Canadá em 2009. Os primeiros anos, como sempre, foram difíceis. “Foi uma decepção o fato da ‘Canadian Experience’ ser pré-requisito para se entrar no mercado. Para recém-chegados, isso é quase impossível,” relembra Aline.  Os dois precisaram encarar subempregos até conseguirem oportunidades em suas áreas profissionais.

Aos poucos tudo foi se ajustando e a família cresceu. Manuela nasceu em 2014 e ajudou o casal a superar a maior dificuldade: ficar longe dos amigos e parentes. Construir novas amizades tem também ajudado neste caso: “Somos membros ativos de uma igreja brasileira em Toronto, o que nos ajuda muito a manter contato com nossa cultura. Lá também criamos vínculos de amizades preciosos,” conta Cristiano. Voltar para o Brasil é uma incógnita. “O Brasil será sempre nossa pátria-mãe e a gente gosta de saber (e pensar) que temos a possibilidade de voltar quando quisermos,” diz Cristiano que conclui: “Hoje o Canadá é nossa nação também. Oficialmente, nos tornamos cidadãos canadenses em novembro de 2013. Na cerimônia de cidadania, o juiz citou uma frase de um Ministro de Alberta: Se tornar cidadão de uma nova pátria é como um casamento. Você escolhe seu noivo(a) e se casa com ele, mas nunca deixa de amar sua mãe.”

#Canada 150

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