Raquetadas do destino

Sebastião Oliveira fala de sua improvável trajetória até a criação do centro de treinamento de badminton Miratus.

por Luiz Humberto Monteiro Pereira

humberto@esportedefato.com.br

Entrevista com Sebastião Dias de Oliveira, criador da Associação Miratus de Badminton - Foto: Sikana

Entrevista com Sebastião Dias de Oliveira, criador da Associação Miratus de Badminton – Foto: Sikana

Nos Jogos Rio 2016, a Miratus se tornou a grande referência no badminton brasileiro. O centro de treinamento de badminton carioca formou Ygor Coelho e Lohaynny Vicente, os dois representantes brasileiros da modalidade nas Olimpíadas do Rio. Ygor é filho de Sebastião Oliveira, um professor de Educação Física capixaba que criou em 1998, na comunidade da Chacrinha, Zona Oeste do Rio de Janeiro, um projeto inusitado: um centro social para ajudar jovens carentes através do ensino do badminton.

No Miratus, ele desenvolve o chamado Método Bamon, um programa de treinamento que ele mesmo inventou, onde músicas ajudam a executar os movimentos do esporte de forma progressiva e lúdica. “A Miratus traz esperança e motivação para se chegar a jogar nas Olimpíadas. Ou seja, dá opção de jovens seguirem no esporte, desviando-se do tráfico”, explica Sebastião, que teve um começo de vida difícil – foi interno na Funabem e catou papel e comida em um lixão.

Aos 49 anos, o diretor técnico do Miratus se orgulha de oferecer uma estrutura de quatro quadras oficiais, dois alojamentos, uma cozinha industrial e um refeitório, além de uma academia. “Atendemos mais de duzentas pessoas. Temos um curso pré-vestibular, culinária, informática, música, arte e cultura, português, matemática, inglês e badminton. Ações desse tipo nas comunidades são fundamentais”, acredita Sebastião, que mantém o Miratus com apoio do Ministério do Esporte, Secretaria de Esporte e Juventude do Estado do Rio de Janeiro, GDF Suez, Artengo, Decathlon, Rise Up & Care, Oi Futuro, Lamsa, Instituto Ivenpar e Instituto Nissan.

Nas férias da Funabem, eu tinha que ir para o lixão catar papelão e coisas para comer, ajudar na renda em casa. Disputávamos comida com urubus.

Esporte de Fato – Você teve um início de vida difícil. Como foi sua trajetória?
Sebastião Oliveira – Minha família é do Espírito Santo. Minha mãe era empregada doméstica e trabalhava com uma família que também tinha residência no Rio de Janeiro. Convidada para trabalhar no Rio, aceitou e me deixou sendo criado por parentes. Depois de um tempo, ela se desentendeu com essa família e foi trabalhar em outra casa. Seu novo patrão era um advogado, morador de uma grande mansão no Jardim Botânico, na Zona Sul carioca. Nos fundos, ficava uma linda casa de dois andares, onde moravam os empregados. Minha mãe viu uma possibilidade de me trazer para junto dela e eu vim para o Rio. Quando revelou suas intenções à família dos patrões, eles vetaram minha permanência naquela casa. E me internaram na Funabem, Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor, uma instituição que cuidava de menores carentes e infratores. Fiquei ali dos sete aos dezoito anos. Quando eu tinha doze, minha mãe deixou de ser empregada doméstica e alugou uma casa em Duque de Caxias. Passou a trabalhar no lixão de Jardim Gramacho para pagar o aluguel. A casa era a mais feia da rua. Quando chovia, tínhamos que ir para o lado de fora para não nos molhar. Nas férias da Funabem, eu tinha que ir para o lixão catar papelão e coisas para comer, ajudar na renda em casa. Disputávamos comida com urubus. Aos dezesseis anos, o mestre de um curso que eu fazia na Funabem me disse que eu deveria buscar outro curso. “Me preocupa você sair daqui aos dezoito anos sem profissão. Como vai se manter? A não ser que sua família tenha uma boa condição financeira”, disse ele. Aquele professor mudou minha forma de ver o mundo, me fez aproveitar melhor as oportunidades. Assim, no ano seguinte fiz um bom curso, fui para o Senai… E sigo retribuindo o que fizeram por mim. Dessa forma, nasceu meu sonho de atrair jovens através do esporte e dar aconselhamentos em sua trajetória de vida, usando toda a experiência colhida ao longo de minha vida. Ao conhecer minha esposa, que morava na comunidade da Chacrinha, e vendo as crianças da favela correndo de um lado para o outro sem oportunidades, não tive dúvida em parar a construção da minha casa e investir tudo que eu ganhei na vida para adquirir os terrenos e construir a Miratus.

Esporte de Fato – E por que o badminton?
Sebastião Oliveira – O badminton apareceu por acaso. Pratiquei natação e assim o projeto na Chacrinha seria de natação. Porém, durante a construção, um professor do Colégio Pedro II chamado Mauro Raso Camargo apareceu com uma raquete “alienígena”. Tentei descobrir do que se tratava, mas a resposta não vinha. “Que raquete é essa?”, perguntei. “De badminton”, ele respondeu. “Bad o quê? Como é jogado?”, perguntei. Como jogávamos um jogo muito parecido chamado frescobol, quis experimentar e logo me apaixonei. Não tive dúvidas de passar para o badminton. É um esporte que inclui. Nele jogam altos e baixos, gordos e magros, velhos e novos. Ele une as famílias.

Temos que criar ídolos do bem nas comunidades, criar referências profissionais que motivem os jovens.

Esporte de Fato – Como vê a importância de organizações como a Miratus?
Sebastião Oliveira – Ações nas comunidades são necessárias para fazer concorrência com o tráfico, que exerce suas atividades com muita competência, capacitando seus futuros “funcionários” a partir dos sete anos de idade. A eficiência do tráfico de drogas é notória. Faz sua estruturação de forma que a sociedade não perceba, e nem mesmo os comandantes do tráfico percebem que estão fazendo a capacitação. O convívio desses jovens com o tráfico faz com que presenciem assaltos, a ostentação de carros de luxos roubados, cordões de ouro, mulheres bonitas e muito dinheiro. Isso traz uma falsa credibilidade a essa atividade e desperta desejos de muitos a seguirem pelo mesmo caminho. Mas permanência nessa atividade traz um alto preço a se pagar. A Miratus traz esperança e motivação para se chegar a jogar nas Olimpíadas. Ou seja, dá opção de jovens seguirem no esporte, desviando-se do tráfico. Temos que criar ídolos do bem nas comunidades, criar referências profissionais que motivem os jovens.

Esporte de Fato – Como replicar um projeto tão bem-sucedido quanto o Miratus para outras comunidades?
Sebastião Oliveira – As boas ações devem ser apoiadas com investimentos e devem tornar-se políticas públicas. No nosso caso, já fiz o principal investimento. Tenho uma metodologia própria e patenteada, com todo conteúdo programático gravado em HD, com livros e manual de aplicação. Esse é o meu sonho, reproduzir em outras comunidades o que acontece aqui.

Esporte de Fato – Como vê as chances do Brasil conseguir vagas para o badminton nos Jogos Tóquio 2020?
Sebastião Oliveira – Vejo chances totais. O Ygor Coelho conseguiu a vaga para as Olimpíadas do Rio pelo ranking internacional, sem depender da vaga destinada ao Brasil. Mas ainda falta apoio. É preciso investir em esportes na base, para gerar ídolos. E os Jogos Rio 2016 foram muito positivos para a divulgação da modalidade.

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