Contraditório conflito de interesses

Dilemas entre a mídia esportiva brasileira e os patrocinadores. Jornalismo esportivo brasileiro esconde patrocinadores do esporte e atrapalha o que deveria incentivar.

Por Luiz Humberto Monteiro Pereira
humberto@esportedefato.com.br

Dilemas entre a mídia esportiva brasileira e os patrocinadores - Foto do time do Rexona-Sesc, bicampeão da Supercopa de Vôlei feminino: Célio Messias/Inovafoto/CBV

Dilemas entre a mídia esportiva brasileira e os patrocinadores – Foto do time do Rexona-Sesc, bicampeão da Supercopa de Vôlei feminino: Célio Messias/Inovafoto/CBV

No dia 7 de outubro, em Uberlândia, o carioca Rexona-Sesc – do técnico multicampeão olímpico Bernardinho – venceu o time da casa, o Dentil/Praia Clube, por 3 sets a 1 (25/12, 25/19, 25/27 e 25/20), e se conquistou o bicampeonato da Supercopa de Vôlei Feminino. Mas, na grande maioria das manchetes, a vitória foi do “Rio de Janeiro” sobre o “Praia Clube” – que em alguns veículos virou o “Uberlândia”. Suprimir qualquer menção aos patrocinadores dos nomes dos times ou das competições esportivas é uma prática comum na cobertura nacional das emissoras de televisão, rádio, internet e mídia impressa.

Nessa “cruzada publicitária”, vale não apenas mudar os nomes patrocinados de equipes e arenas esportivas para denominações “genéricas”, mas também borrar logomarcas nas camisas, bonés e nas placas dos ginásios e estádios, nas fotos e vídeos. Ou até mesmo dar cobertura apenas aos eventos esportivos que tragam também anúncios pagos e ignorar os outros, mesmo que sejam mais interessantes para o público. As imposições dos departamentos comerciais, muitas vezes, acabam atrapalhando a imprensa esportiva brasileira na tarefa prioritária de comunicar.

Quando o nome do patrocinador é incorporado ao nome da equipe ou da arena, não existe outra maneira mais eficiente de citá-los. Ao ver a equipe que conhece por um nome ser tratada de uma forma “inventada” apenas para suprimir a menção ao patrocinador, o público acaba sem entender direito sobre o que o jornalista está falando. Ao abdicar da precisão da informação em nome de um mercantilismo estéril, que não lhe rende nada, o jornalismo esportivo leva uma tremenda “bola nas costas”.

Além de gerar ruídos na comunicação ao abrir mão da precisão, os veículos de imprensa que cedem a essas imposições prejudicam bastante o próprio objeto de suas coberturas: o esporte brasileiro. Qual seria a motivação de uma empresa para renovar o patrocínio a um atleta ou a uma equipe nacional se, quando seu patrocinado aparece na mídia, a marca da empresa patrocinadora é sumariamente suprimida? Por que renovar um contrato de patrocínio se o retorno de mídia é brutalmente minimizado pelo intenso trabalho de “censura das marcas” realizado pelos meios de comunicação? A “ocultação” das marcas na mídia se reflete em patrocinadores mais arredios e as verbas publicitárias mais escassas.

Um dos efeitos colaterais disso é perverso e bastante conhecido por quem se interessa por esporte. Trata-se do êxodo dos melhores atletas brasileiros, que partem para o exterior em busca de reconhecimento profissional para suas atividades – e vão justamente para países onde os patrocinadores conseguem grande exposição de suas marcas. Ou seja, pegam uma merecida “carona” no sucesso das competições, equipes e atletas que apoiam. Como se fosse um “efeito dominó”, a ida dos atletas de destaque para outros países acaba gerando um outro efeito colateral, que afeta justamente quem iniciou o processo: a imprensa esportiva. Com os torneios nacionais esvaziados pela emigração de seus principais talentos, cai o interesse do público pelo esporte – e, consequentemente, pelos veículos que cobrem o assunto. Com menores audiências, cai o interesse pelos espaços publicitários e os veículos de comunicação especializados em esporte se atrofiam.

Se pretendem melhorar sua performance, é hora da mídia esportiva rever seus conceitos. Priorizar uma cobertura verdadeiramente jornalística, que valorize os fatos importantes e não apenas os que remuneram os veículos, é o caminho mais inteligente. Quando os responsáveis pela imprensa esportiva perceberem que os patrocinadores são um componente fundamental do esporte de alto nível, o Brasil terá começado a virar o jogo. Que as Olimpíadas e Paraolimpíadas do Rio de Janeiro, onde a intensa participação dos patrocinadores foi definitiva para o sucesso esportivo e comercial do evento, ajude a deixar essa lição.

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