Muito além das medalhas

Em 12 dias intensos, Paraolimpíadas do Rio de Janeiro renderam momentos emocionantes do esporte mundial.

por Luiz Humberto Monteiro Pereira
humberto@esportedefato.com.br

Petrúcio Ferreira na pista do Estádio Olímpico: Daniel Zappe/MPIX/CPB

Petrúcio Ferreira na pista do Estádio Olímpico: Daniel Zappe/MPIX/CPB

O início já foi um belíssimo cartão de visitas. Desde a cerimônia de abertura, realizada na noite de 7 de setembro no Maracanã, os Jogos Paraolímpicos do Rio de Janeiro já deixaram claro que emoção não faltaria no evento. No começo, o salto do cadeirante Aaron Wheelz na “megarrampa” eletrizou o público – voou por dentro de um número zero, deu um mortal e caiu em um colchão. A coreografia da americana Amy Purdy, que dançou e sambou sobre próteses em um inusitado dueto um robô industrial, também foi cativante. Quando o nadador Clodoaldo Silva, uma lenda do esporte paraolímpico brasileiro, acendeu a pira paraolímpica, toda a chuva que caia sobre o Maracanã não bastou para esconder as lágrimas. Em um espetáculo bastante aplaudido, as únicas vaias foram para o presidente Michel Temer, de declarou oficialmente abertos os Jogos Paraolímpicos Rio 2016.

Ao longo dos 12 dias de evento, muitos momentos comoventes. Exatos 15 anos após o acidente automobilístico onde teve as pernas amputadas acima do joelho, o ex-piloto italiano Alessandro Zanardi conquistou no Rio duas medalhas de ouro e uma de prata – repetiu a performance obtida em Londres-2012. Embora tenha sido eliminado nas oitavas de final, outro que chamou a atenção foi o arqueiro norte-americano Matt Stutzman, que não tem os dois braços – maneja o arco usando os pés. Já a corredora paralímpica belga Marieke Vervoort, de 37 anos, vítima de uma doença crônica degenerativa responsável por ter paralisado seus membros inferiores e que lhe causa dores agudas, abalou muita gente ao declarar que, após os Jogos Rio 2016, pretende submetida à eutanásia.

Embora a expectativa total de medalhas brasileiras tenha sido atingida – foram 72 –, a quantidade de medalhas de ouros – 14 – ficou abaixo do projetado antes do evento pelo Comitê Paraolímpico do Brasil. Em Londres o Brasil havia conquistado 43 medalhas, sendo 21 de ouro. Mas em 2012 apenas sete esportes tiveram representantes brasileiros no pódio, enquanto em 2016 foram 13 modalidades premiadas. Grande “popstar” paraolímpico nacional, o nadador Daniel Dias fez bonito. Optou por participar de nove provas pelo Brasil na Rio-2016 e foi ao pódio em todas elas: quatro medalhas de ouro, três de prata e duas de prata e duas de bronze – tornou-se o atleta que mais ganhou medalhas nas Paraolimpíadas do Rio. Seu colega Andre Brasil, que chegou ao Rio de Janeiro com dez medalhas paraolímpicas, sendo sete de ouro e três de prata, teve uma participação bem mais discreta. Ficou com duas pratas e um bronze.

Daniel Dias - Crédito: Luiza Kreitlon / Pautas & Notícias

Daniel Dias – Crédito: Luiza Kreitlon / Pautas & Notícias

No atletismo, as principais apostas brasileiras deixaram a desejar. Campeão paraolímpico em Londres nos 200 m T43, Alan Fonteles ficou na fase eliminatória das provas individuais e levou apenas uma medalha de prata no revezamento 4X100. Bicampeã olímpica nos 200 m e ouro nos 100 m rasos em Londres-2012, Terezinha Guilhermina queimou as largadas nas provas individuais nos 100 m e 200 m para deficientes visuais. Acabou com um bronze no revezamento 4×100 m e uma prata nos 400 m. Medalhista de ouro nos 200 m rasos T46 e prata nos 400 m em 2012, Yohansson Nascimento também não se saiu tão bem no Rio: bronze nos 200 m e prata no revezamento 4X100.

Mas nem tudo foi frustração no atletismo paraolímpico brasileiro. Na mesma prova onde o campeão paraolímpico de 2012, Yohansson Nascimento, foi bronze no Rio, o mundo conheceu um novo campeão brasileiro para os 200 m T47. O paraibano Petrucio Ferreira, de apenas 19 anos, levou o ouro com a marca de 10s57. Depois, ainda conquistou a prata nos 400m T47. Outros atletas novatos conquistaram medalhas de outro no Rio de Janeiro: Ricardo Oliveira e Silvânia Costa, ambos no salto em distância F11, Daniel Martins, nos 400 m T20, Alessandro Silva, no lançamento de disco F11, e Claudiney Batista, no lançamento de disco F50, Shirlene Coelho, no lançamento de dardo F37, e a equipe de revezamento do 4X100 m T11/T13, para deficientes visuais.

Na bocha adaptada, havia grande expectativa pela performance do bicampeão paraolímpico individual e em duplas Dirceu Silva, que acabou levando apenas uma medalha de prata como reserva da dupla mista BC4. Em compensação, a bocha brasileira rendeu um dos momentos mais emocionantes das Paraolimpíadas do Rio. Foi durante a comemoração do ouro brasileiro na classe BC3, para atletas com deficiências muito severas, que competem em cadeira de rodas e podem ser ajudados por outra pessoa durante a competição. Antônio Leme, o Tó, vibrou demais com o irmão Fernando, que é calheiro da dupla dele com Evelyn de Oliveira. Na final, a dupla brasileira venceu o time da Coreia do Sul por 5 a 2. O abraço de Fernando no eufórico Tó, que é cadeirante por causa de uma paralisia cerebral, amoleceu o coração do público brasileiro que comemorava o resultado na Arena Carioca 2.

Comemoração da Austrália no rugby em cadeira de rodas. Crédito: Luiza Kreitlon / Pautas & Notícias

Comemoração da Austrália no rugby em cadeira de rodas. Crédito: Luiza Kreitlon / Pautas & Notícias

As finais do esportes coletivos paraolímpicos renderam outros momentos antológicos. No futebol de 5, para deficientes visuais, o Brasil ganhou do Irã com um magro 1X0, com gol de Ricardinho. O gol garantiu ao Brasil um retrospecto impressionante: quatro medalhas de ouro nas quatro edições do esporte desde que ele foi introduzido nas Paraolimpíadas – começou em Atenas-2004. No rugby em cadeira de rodas, em uma partida eletrizante, a Austrália derrotou os Estados Unidos por 59X58, depois de dois tempos extras. A final atraiu o maior público para da história da modalidade em todo o mundo. O vôlei sentado, o Irã contou com o gigante Morteza Mehrzad, com seus 2,46 m, para recuperar a hegemonia mundial do esporte ao derrotar a Bósnia-Herzegovina. No basquete em cadeira de rodas, os Estados Unidos dominaram. No feminino, venceram as alemãs na final por 62 a 45. No masculino, superaram a Espanha por 68 a 52.

No balanço final, os Jogos Paraolímpicos do Rio surpreenderam positivamente. Foram vendidos 84% dos ingressos, o que totalizou 2,1 milhões de pessoas – foi a segunda edição com mais espectadores da história das Paraolimpíadas. Na festa de encerramento, na noite de 18 de setembro, compareceu novamente uma chuvarada atípica para o inverno carioca. Um dos destaques foi a homenagem feita ao ciclista iraniano Bahman Golbarnezhad, que morreu durante a prova de ciclismo de estrada. Outro foi o guitarrista do Nação Zumbi, Lúcio Maia, que aproveitou um momento em que estava aparecendo no telão do Maracanã para exibir a parte de trás de sua guitarra, onde estava uma inscrição “Fora Temer”. Depois de diversos shows musicais de diversos gêneros, chegou a inexorável hora de apagar a chama paraolímpica.

Agora, só em 2020, em Tóquio.

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