Sufoco no bonde

Nem te Conto!

por Marta Almeida

Quando Alfredo chegou a Toronto, tudo era novidade. Matuto do interior de Minas, ele simplesmente ficou deslumbrado com a cidade.

– É tudo diferente demais, moderno e muito prático – contava feliz aos amigos e parentes quando ligava para o Brasil.

Na primeira semana queria conhecer tudo. Saiu com os amigos à pé pelo centro da cidade. Subiu a torre.  Ficou encantado com tudo, mas sempre contava com a ajuda dos amigos já que o inglês era 0%. Na segunda semana porém, Alfredo  já achava que poderia se aventurar sozinho pela cidade.

– Não nasci grudado em ninguém –  Disse ao colega de quarto que estava preocupado dele se perder –  pode ficar tranquilo, só vou dar uma voltinha pelo centro. E assim foi.

Até então, quando Alfredo andava de transporte público, os amigos cuidavam de tudo, inclusive do pagamento da passagem. Ele nunca prestou muita atenção em como tudo funcionava, mas mesmo assim resolveu encarar o streetcar (bonde). Embarcou na College e queria descer na Spadina. Entrou, prontamente apresentou o dinheiro da passagem ao motorista e, achando que estava arrasando, disse:

– I want to go to Spadina Avenue!

O motorista, em inglês, explicou que o dinheiro deveria simplesmente ser jogado na caixa de coleta, apontando para a caixa. Alfredo, claro, não entendeu e insistia em entregar o dinheiro ao motorista que continuava apontando para a caixa.

Já nervoso com a situação Alfredo pensou: O que será que este homem quer tanto apontando para esta caixa? E insistia:

– I want to go to Spadina Avenue!

O motorista dizia OK e  continuava apontando para a caixa. Alfredo deduziu então que a tal caixa deveria ser mais uma destas coisas modernas do Canadá, um dispositivo que registrava o local para onde o passageiro queria ir. Assim, não teve dúvidas, aproximou o rosto da caixa e falou bem alto, três vezes para não ter erro:

– Spadina Avenue please!

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