Brasil abaixo de zero

Brasileiros se unem e socializam através do curling.

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Time brasileiro de Curling 2014-2015. Crédito: Brazilian Curling Club

Quando Luciana Barrella, uma veterinária de Manaus, no Amazonas, assistiu pela primeira vez a um jogo de curling durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver, ela ficou um pouco indignada porque não acreditava que aquilo pudesse ser um esporte olímpico. “Como pessoas com vassouras ‘limpando’ gelo podiam estar disputando medalhas que tinham a mesma importância de uma patinação no gelo, por exemplo, onde o atleta precisa de tanto preparo e treinamento?” – questionou a brasileira residente há seis anos em Vancouver.

Indignação despertou em Luciana Barrella a curiosidade em saber mais sobre este esporte totalmente esquisito. Crédito: Brazilian Curling Club

Indignação despertou em Luciana Barrella a curiosidade em saber mais sobre este esporte totalmente esquisito. Crédito: Brazilian Curling Club

Essa indignação despertou em Luciana a curiosidade em saber mais sobre este esporte totalmente esquisito. Ela passou a acompanhar os jogos e gostou tanto que acabou até montando um time brasileiro. “O curling foi uma das melhores descobertas que fiz no Canadá. Este é um esporte extremamente inclusivo e social, o que ajudou muito na minha adaptação ao país, e, principalmente, transformou um período que pode ser difícil como o inverno em algo muito prazeroso.” – conta a atleta.

Varrendo e girando

Isis Oliveira, Alessandra Regina, Luciana Barrella, Sarah Lipi, Anne Shibuya e Aline Lima

Isis Oliveira, Alessandra Regina, Luciana Barrella, Sarah Lipi, Anne Shibuya e Aline Lima. Crédito: Brazilian Curling Club

Curling é um esporte olímpico coletivo praticado em uma pista de gelo cujo objetivo é lançar pedras de granito o mais próximo possível de um alvo, utilizando para isso a ajuda de varredores. O nome do esporte origina-se do verbo em inglês “to curl”, que significa “girar”, e se deve ao fato de as pedras serem levemente giradas no ato do lançamento, percorrendo uma parábola em sua trajetória.

Criado por volta do século XVI na Escócia, o esporte teve as primeiras regras elaboradas em 1838, “As pessoas jogavam do lado de fora na época de inverno, usando vassouras mesmo pra poder fazer a pedra chegar mais longe e era um esporte totalmente masculino. Disseminado pelo mundo através de imigrantes escoceses, o curling é hoje em dia praticado principalmente no Canadá. “Hoje o esporte mudou, o gelo é especial, pedras especiais, vassouras especiais, a técnica e treinamento e nível de competição viraram coisa séria e jogam crianças e adultos, homens e mulheres e até time mistos.” – conta Ísis Oliveira, natural de São Paulo e residente em Vancouver. “Infelizmente, o Brasil ainda não possui uma pista para curling e por isso todos os atletas desse esporte moram em outras partes do mundo onde podem treinar e jogar.”

Confira o vídeo abaixo (em inglês), uma maneira criativa e divertida de explicar o que é o curling.

Ísis já morava em Vancouver durante as Olimpíadas de Inverno de 2010, quando pela primeira vez o curling foi transmitido nas televisões brasileiras, “Apesar de já estar morando no Canadá,  eu estava de férias no Brasil quando os Jogos começaram e foi nesse momento que eu tive meu primeiro contato com o esporte.” – conta, “Eu me lembro muito bem quando assisti a minha primeira partida pela TV. Eu fiquei curiosa tentando entender como eles deslizavam no gelo, porque eles varriam e qual era a estratégia das posições das pedras para se ganhar o jogo.” Ísis gostou do desafio, e quando retornou a Vancouver, já não era a única brasileira a se interessar pelo esporte, “Foi aí que eu e algumas amigas, como a Alessandra e a Luciana, fomos cair pela primeira vez num rink de curling!”

Brasileiros se unem e socializam através do curling

O paulista Márcio TM Rodrigues.

O paulista Márcio TM Rodrigues.

Atualmente existem brasileiros praticando o esporte em Edmonton (Alberta), Ottawa (Ontário), Vancouver (Colúmbia Britânica), Sherbrooke (Quebéc) e também em Yukon. Fora do Canadá, há praticantes brasileiros ainda na Suíça.

Em Sherbrooke, em 2009, quatro rapazes montaram um time e até então eram os únicos brasileiros praticando curling. Acabaram formando a seleção brasileira masculina.

Em Vancouver, tudo começou quando Raphael Monticello, que jogava curling apenas com canadenses, postou no Facebook sobre um evento que aconteceria em um clube local. “Um monte de brasileiros foi, inclusive eu.” – conta o paulista Márcio TM Rodrigues, do Brazilian Curling Club. “Fez tanto sucesso que organizamos aulas regulares e começamos a participar de ligas pelos clubes da cidade.”

Daniel Mermelstein e Alessandra Regina

Daniel Mermelstein e Alessandra Regina. Crédito: Brazilian Curling Club

A ideia era manter o grupo unido e focado no propósito de aprender e jogar curling. “Pelo jeito está dando certo, pois já estamos em nossa terceira temporada. Montamos a seleção feminina com garotas de Vancouver, a mista com o pessoal de Quebéc e da Suíça, e agora estamos organizando um time júnior para representar o Brasil nos Jogos Olímpicos da Juventude, em 2016, na Noruega!” – diz Márcio, que é engenheiro de som. Para ele, o envolvimento com o curling foi um divisor de águas. “Aprendo mais e mais cada vez que jogo, sobre meus limites, trabalho de equipe, respeito e como lidar com sucessos e fracassos. Expandi meu grupo de amigos e continuo ampliando a cada campeonato e cada liga, pois é um costume sentar-se à mesa no lounge com o time adversário após o jogo e dividir uma jarra de cerveja.”

Quando diz a canadenses e outros brasileiros que pratica o curling, Luciana diz que as pessoas ficam sempre muito surpresas achando que não é algo sério, “Fazem sempre a mesma piada dizendo que nós somos como o time de bobsleigh do filme ‘Jamaica Abaixo de Zero’, mas depois a reação é igual, brasileiros e canadenses adoram a ideia, e dão a maior força.”

Brazilian Curling Club

Pessoas que eram interessadas no esporte resolveram se juntar e juntas encontraram gelo pra treinar, técnico pra ensinar, uniforme… e com isso surgiu o Brazilian Curling Club.

Marcelo Mello e Aline Gonçalves serão os representantes do Brasil no Mundial de Curling de duplas mistas em 2016, na Suécia. -

Marcelo Mello e Aline Gonçalves serão os representantes do Brasil no Mundial de Curling de duplas mistas em 2016, na Suécia.- Crédito: Brazilian Curling Club

De acordo com Ísis, o “BCC é um clube de união, onde todos trabalham voluntariamente com o objetivo de fazer o esporte crescer entre os brasileiros e investir no desenvolvimento de atletas competitivos. Juntos acreditamos que podemos ajudar o Brasil a crescer nessa modalidade.”

Hoje em dia o BCC conta com atletas que treinam e participam de competições locais e internacionais, tendo times masculino, feminino, misto e  duplas, “somos todos atletas afiliados à Confederação Brasileira de Esportes do Gelo, temos página no facebook, website, logo, uniforme, PINs e aqui em Vancouver oferecemos aulas para novatos no esporte.” – diz Ísis. – “Quero salientar que Márcio TM tomou a frente dos treinamentos dos novatos e vem apresentando um grande trabalho.” Segundo a atleta, Márcio juntou sua experiência de atleta com a experiência que recebeu com diferentes técnicos e montou um programa de ensino em português que engloba técnica, estratégia, treinos e jogos para brasileiros que tem nenhuma ou pouca experiência no gelo. “As aulas estãos indo muito bem e até agora sucesso absoluto.”

Para cursos, partidas e atividades, visite a página oficial do Brazilian Curling Club.

Clínica de curling em Toronto

A Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG), em parceria com a Federação Mundial de Curling (WCF) e a Associação Canadense (Curling Canada), promove no dia 27 de fevereiro, em Toronto, uma atividade recreativa gratuita para que os interessados tenham seu primeiro contato com o esporte.

O objetivo é tornar o Curling, tradicional no Canadá, mais conhecido entre os brasileiros. A clínica é aberta a participantes de todas as idades e será ministrada por instrutores de alto nível brasileiros e canadenses, com turmas em três horários: 10h, 11h30 e 13h. Todos os equipamentos serão fornecidos.Para se inscrever é necessário enviar nome, data de nascimento e o horário desejado para o e-mail marcelo.mello@cbdg.org.br. A atividade será realizada no Royal Canadian Curling Club, em Toronto.

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