A água do planeta discutida em fórum

O Fórum Mundial da Água reuniu mais de 180 países na Coreia do Sul.

por Rogério Silva

Foto por National Comittee for the 7th World Water Forum

Foto por National Comittee for the 7th World Water Forum

Imagine você voltando para casa após um dia exaustivo de trabalho e estudos. A jornada na empresa começou cedo. Você se vestiu ainda no escuro, enfrentou uns 2 ou 3 ônibus lotados, amargou aquela baia na repartição onde o ar condicionado está quebrado faz meses. Tem que se contentar com um ventilador para você e mais 15 colegas.

No fim do expediente, sai às pressas para a faculdade, onde sua atividade se prolonga até 10 da noite. Mais um ou dois meios de transporte sofríveis e, finalmente, chega em casa. Não tem água!

Do meu ponto de vista, há um equívoco nas campanhas publicitárias que geram apelo pela economia de água. O brasileiro é individualista, não se sensibiliza com o drama coletivo.

Essa balela de sofrimento dos irmãos do Nordeste ou o drama dos paulistanos com o Sistema Cantareira minguando não cola. O negócio é sentir na pele as consequências da escassez de água. Por exemplo, na hora de lavar a roupa da família, na máquina ou no tanque. Sem água, não dá. Ou arrumar os meninos para a escola.

O Fórum Mundial da Água, realizado pela sétima vez, reuniu representantes de mais de 180 países na Coreia do Sul por uma semana, no mês de abril. A choradeira é geral, mas as saídas criativas para buscar alternativas são variadas e factíveis, parte delas já postas em prática com sucesso. A mais conhecida é a dessalinização, que resolve situações em que não há água potável disponível. São 16 mil usinas desse tipo espalhadas pelo mundo, a exemplo de Irã, Israel e Dubai – este último nos Emirados Árabes.

Há outros exemplos de práticas que exigem planejamento longo com vistas a soluções perenes, como os milhares de quilômetros de tubulações que atravessam parte da Eurásia levando água potável de onde há para onde não brota.

Logo do 7th World Water Forum

Logo do 7th World Water Forum

O Brasil, como de costume, é incompreendido pelos outros. Como pode a mais rica nação em água potável sofrer com escassez e recentes ameaças de racionamento? Os gringos não entendem as perdas na distribuição e a falta de investimento público e manutenção das redes. O Brasil é abençoado pela natureza, privilegiado em seus mananciais, mas esbarra na dificuldade de unir pontas, fato que já depende de tecnologia e mão de obra.

Enquanto sobram interesses empresarial e estatal no desenvolvimento de soluções mundo afora, falta ao Brasil vontade de investir em planejamento para estar vacinado contra as ameaças de estiagens prolongadas, que certamente ocorrerão.

Contar apenas com a compreensão das pessoas e pregar economia doméstica não vai resolver. Também não parece crível despejar toda responsabilidade em esferas divinas, emprestando nacionalidade brasileira a Deus e seus discípulos. A nossa parte, enquanto cidadãos, será sempre feita, pois é no nosso dia a dia que recai o sofrimento da ausência de uma gota d´água no chuveiro.

A comunicação pode dar uma mãozinha. Nada de solos rachados e plantações de milho ressecadas, desmanchadas à luz do sol ardente. As situações reais, a que todos nós já fomos submetidos um dia, podem impactar bem mais e surtir o efeito que as companhias de abastecimento buscam. A falta de água na panela para cozinhar o feijão, para a faxina da casa, para o churrasco com os amigos no sábado à tarde, na hora de usar o banheiro, de regar as plantas do jardim…

Se o assunto não fosse de tamanha relevância, não atrairia 50 mil pessoas, inclusive eu, para uma discussão internacional. Mad Max nunca foi tão atual.

(*) Rogério Silva é jornalista, administrador e professor universitário. Especialista em gestão executiva e empreendedora. Contato: rsilva@tvparanaiba.com.br

 

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