O Metropass e o prejuízo

por Marta Almeida

Carla nunca foi usuária de transporte público no Brasil. Família de classe média, carro na porta. Onde precisava ir, o pai levava. Nem mesmo quando ela queria apenas ter a experiência de “andar de ônibus” a família permitia.
Tá muito violento lá fora minha filha. Deixa que eu te levo – o pai preocupado acabou criando uma pessoa totalmente despreparada para o transporte público.
Quando chegou ao Canadá depois de decidir imigrar contra a vontade do pai protetor, Carla finalmente pode experimentar pela primeira vez o transporte público. E como inglês de verdade só se aprende com o contato constante com a língua, claro que houve confusão e prejuízo neste primeiro contato. Mesmo sem ter muita intimidade com o sistema, Carla sabia no Brasil que tinha que pagar uma passagem cada vez que entrava no ônibus e assim fazia em Toronto. Toda vez que entrava pagava a passagem! Ela só achava estranho porque o motorista sempre queria lhe dar aquele “recibo” pequeno!
“No, thanks!” Respondia confiante, recusando o “transfer” que lhe permitiriam a baldeação sem ter que pagar outra passagem.
As moedas foram acabando e Carla observou que algumas pessoas em vez de pagar em dinheiro, mostravam um cartãozinho – o metropass. Comprou é claro! Mas nem se incomodou em saber como usar! Só achou meio caro e deduziu que era porque podia usar o dia todo, já que viu muita gente saindo de um ônibus e entrando no outro com o mesmo cartãozinho. E assim fez. Andou pra cima e pra baixo mostrando orgulhosa o seu primeiro metropass! No fim do dia simplesmente jogou fora o cartão… Na manhã seguinte, ao comprar um novo metropass na lojinha da esquina da rua onde morava, o atendente estranhou:
“Did you lose your metropass yesterday”?
“No!!! I used all day! I need another one for today”…
O rapaz atencioso conseguiu explicar que o metropass era mensal e Carla finalmente aprendeu com prejuízo como usar o transporte público no Canadá.

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