Bife queimado

C R Ô N I C A

CONTEΧTO
Bife queimado.
R u b e n s M a r c h i o n i

Diz o Evangelho que certa vez Marta e Maria receberam Jesus em sua casa. Enquanto Marta correu para a cozinha, deixando o essencial, para cuidar do que era apenas importante, Maria ficou ali, com o Messias. Ela escolheu a melhor parte, a que não lhe será tirada. A garantia é assinada por Jesus, e eu não discuto.

Uma pergunta para começarmos esta conversa – se quiser, ela vale por um teste para o casal: quantas vezes vocês já deixaram o bife queimar na frigideira? Nenhuma? Peçam socorro. Apenas uma? Ainda é pouco. Isso pode ser um grave sinal de que o relacionamento está muito certinho, quadradinho, cheio de legalidade, milimétrico. Pronto para entrar em coma. “Cuidado, Martas na cozinha.”

Usei a palavra legalidade. Lei. Ela não rima com amor, que é livre, rompe convenções para dizer coisas como “O beijo e o abraço, aquela conversa, tudo estava tão gostoso, interessante, que se não fosse pela gentileza da fumaça vinda da cozinha para avisar, acho que eu não teria me lembrado de que havia um bife na frigideira”.

Sanduíche. O bife queimou, ficou esturricado. Se o óleo for retirado, será possível perceber que escondido embaixo dele há um fogão. Uma catástrofe? Não necessariamente. Por que é quando o amor de namorados cria o próximo texto: “Olha, tem um bar aqui perto. Eles fazem um sanduíche que é uma delícia. Mas se você preferir a gente pede um ‘peéfe’, vamos lá? E como você é a ‘única’ pessoa ‘culpada’ pelo bife queimado, o cafezinho é por sua conta.” Como você vê, não é preciso ser rico para viver, de verdade, um grande amor. Um profundo envolvimento, sensibilidade e alguma criatividade e tiram isso de letra.

Refeição e risada. Poucas vezes uma refeição modesta, regada a boas risadas, terá sido tão completa, nutritiva e gostosa. Limpar a cozinha? Isso vai se transformar numa tarefa leve, mais uma etapa desse evento, em que predomina a diversão entre duas pessoas que se amam. Nesse caso, a criatividade será o ingrediente capaz de revelar novas oportunidades para trocas de gentilezas, camaradagens, ou para uma conversa inte-ressante e gostosa, em que o mais importante não é ter razão, é estarem juntos. Coisa de adolescente sonhador? Também. Mas acima de tudo, coisa de quem ama, está vivo e não vê no amor um ato de ‘imoralidade dessa juventude de hoje em dia, que está perdida’, como dizem alguns que deixaram de ser adolescentes para se transformar em desistentes, uma troca em que a relação custo-benefício decididamente não compensa.

Aula. Do mesmo jeito, poucas vezes, no futuro, uma aula sobre as possibilidades de ser feliz, para os filhos e netos, vai produzir um efeito de tal modo positivo quanto à narração da história, pelo casal, do primeiro dia em que o bife queimou. Este, definitivamente, não será um ensinamento sobre como ser irresponsável segundo a lei, mas uma conversa que vai mostrar de quantas formas é possível ser responsável e feliz segundo o AMOR. Amém. ■

Rubens Marchioni é publicitário, jornalista e escritor. Colunista da revista espanhola Brazilcomz. Publicou Criatividade e redação. O que é, como se faz; A conquista. Um desafio para você treinar a criatividade enquanto amplia os conhecimentos e Câncer de mama. Vitória de mãos e mentes, este último sob encomenda. – rubensmarchioni@gmail.com

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