A trajetória da Copa no Brasil: do discurso festivo para a triste realidade

Por Vitor Zanotelli
2014 é um ano de festa para os brasileiros. É o reencontro do país do futebol com a principal competição entre seleções, a Copa do Mundo. Após sessenta e quatro anos o torneio volta a ser disputado no Brasil, e a torcida pela conquista do sexto título mundial da seleção brasileira cresce a cada dia. A equipe brasileira fará o jogo de abertura no dia 12 de junho, contra a Croácia. México e Camarões são os outros adversários da fase de grupos. A expectativa é que a seleção avance sem grandes dificuldades, embalada pela conquista recente da Copa das Confederações em 2013.
É a segunda vez que nosso país é escolhido para sediar o evento. A primeira ocasião foi na Copa de 1950, data que ficou marcada na memória esportiva dos brasileiros como a maior tragédia de nosso futebol. A seleção foi derrotada pelo Uruguai na partida final, fato que deixou atônitos os expectadores presentes no Maracanã. Porém, o fracasso do passado parece não intimidar mais os torcedores, que acreditam no triunfo da seleção, e também os organizadores, confiantes de que o Brasil apresentará a melhor Copa de todos os tempos.
Para que essa confiança fosse transformada em realidade, além da construção e reforma de estádios, foram anunciados grandes investimentos nas 12 cidades sede – Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Obras de infraestrutura, como melhorias em transporte público, mobilidade urbana, rede hoteleira, ampliação e adequação dos aeroportos par
a, além de receber os milhares de turistas, beneficiarem a população após o término da Copa. Um verdadeiro legado para o país.
Esse discurso inicial otimista também incluía a afirmação de que a Copa seria feita sem uso de dinheiro público, a partir da parceria entre governo e iniciativa privada. Porém, tais promessas não se confirmaram.
Assim como a tragédia da final da Copa de 1950 que ainda assombra os torcedores mais supersticiosos, a gastança de dinheiro público em eventos de grande porte parece ser outro fantasma, que sempre volta – e esse assusta muito mais.
Quando as 12 cidades-sede foram anunciadas em 2009, o custo previsto com a construção e reforma dos estádios era de R$ 3,67 bilhões. Hoje, esse valor subiu para pouco mais de R$ 8 bilhões, um aumento de 263%. Os dados são da Matriz de Responsabilidades, documento do próprio Governo Federal. Só a construção da nova arena de São Paulo, o Itaquerão – que substituiu o Morumbi como representante paulista – gerou um aumento de 355% nas despesas. Outros estádios tiveram seus orçamentos aumentados, como é o caso do Maracanã, que de R$ 600 milhões, saltou para R$1,05 bilhão, e o Mané Garrincha, construído na capital federal, que custou R$1,4 bilhão. Todo esse encarecimento foi bancado pelo Governo.
A menos de 100 dias do início da Copa, a Arena da Baixada, em Curitiba, ainda não havia sido entregue, o que quase causou a eliminação da capital paranaense como cidade-sede. A Arena Pantanal, em Cuiabá, e o Itaquerão,
palco da abertura da competição, também estavam atrasados. O problema não se restringiu às arenas. Após revisão da Matriz de Responsabilidades, 14 obras de infraestrutura do legado da Copa foram descartadas, entre elas BRT de Porto Alegre e a linha 17 Ouro do Metrô, em São Paulo, que ligaria o aeroporto de Congonhas ao bairro do Morumbi. Mas, além dos atrasos, cancelamentos e gastos exorbitantes de dinheiro público, ainda existe outra preocupação. O que fazer com as novas arenas depois que a Copa terminar? Alguns delas estão localizadas em estados que
não possuem grandes representantes no cenário do futebol nacional, como Brasília, Cuiabá, Manaus e Natal. Se não há times nem campeonatos locais que sejam fortes o suficiente para atrair o público, o destino e o uso desses estádios geram dúvidas para o futuro. Só há uma certeza. A Copa vai acontecer. Agora, o Brasil vai encarar um desafio maior do que a conquista da própria taça: terá de provar, que apesar de todos os problemas, somos capazes de realizar um evento digno, não só para a comunidade internacional, mas, principalmente, para nós mesmos.

* Vitor Zanotelli é jornalista, formado pela Universidade Vila Velha – UVV. Tem 29 anos e mora no Brasil. Também atua como tradutor.

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