Travessias artísticas Brasil-Montreal

A brasilidade não é só carnaval, é também Carlos Drummond de Andrade


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Por Martha Tremblay-Vilão

Percurso de uma quebequense no Brasil

A imagem que nós, norteamericanos, temos do Brasil, às vezes se reduz, infelizmente, ao carnaval, à praia e ao futebol, embora o Brasil tenha uma cultura rica e diversa, além da simplificação fomentada pela mídia e pelo olhar estrangeiro de massa.

O Brasil entrou na minha vida pelo caminho das artes e da literatura. O que me interessou, primeiramente, foi a escrita aguda e cínica de Nelson Rodrigues e João Ubaldo Ribeiro, a descrição mítica, encantadora e perigosa da Bahia de Jorge Amado, a representação cômica e absurda do sertão de Ariano Suassuna, o existencialismo e a sensibilidade lírica de Clarice Lispector, assim como a obscenidade divina de Hilda Hilst, entre outros.

A música veio junto com seus sons divergentes, dos mais tradicionais aos mais psicodélicos, compondo e descompondo até a ideia do gênero musical como nacional e sexual. As influências regionais e também exteriores invadiram a cultura brasileira que, quando inteligente, se apropriou os padrões dominantes para subvertê-los.

Percurso de artistas brasileiros em Montreal  

RAFAEL FAVERO, videógrafo,  afirma, falando da Comunidade Brasileira em Montréal : “Infelizmente, ela ainda é contaminada por informações pobres da mídia, busca valores materiais em primeiro lugar e se fecha num universo que não se alimenta do novo, do diferente, de uma maneira alternativa de viver o mundo”.

Rafael tenta conectar e ultrapassar os limites, misturando frentes artísticas com o objetivo de criar algo maior. As suas referências visuais são influenciadas pelos artistas brasileiros, como Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Glauber Rocha e Fernando Meirelles, entre outros.

RAQUEL SANCINETTI, também da área visual, estudou na Universidade de Concordia, para desenvolver a sua carreira de cineasta de animação em ambos os países. As suas fontes principais de inspiração são Caroline Leaf e Michaela Pavlatova.

Ela trabalha principalmente com temas universais e seu último filme de animação, chamado Cycle, tem um teor existencialista e feminista.

No mundo musical, RICARDO WALLACE ROZA e MARCUS FREITAS criaram a Tupi Collective. Inspirados pelo Oswald de Andrade e o manifesto antrópofago e pela Tropicália dos anos 70 no Brasil, eles misturam música negra, samba, crioulo, funk, jazz, etc., usando quase exclusivamente discos de vinil importados do Brasil.

PAULO REBÊLO veio no Canadá para aperfeiçoar sua carreira literária e jornalística. Embora escreva profissionalmente há 15 anos, foi apenas aqui em Montreal que ele terminou 100 amores, livro de crônicas com sabor agridoce sobre vida, relacionamentos e comportamentos sociais e íntimos.

“Eu nunca fiz senão sonhar”

As inúmeras conversas que já tive com artistas brasileiros aqui ou no Brasil giram ao redor daquela frase de Fernando Pessoa, poeta às vezes contraditório e angustiado, mostrando a arte, o sonho, como lugar privilegiado de ação, e até de salvação, como acrescentaria Ferreira Gullar.

O poder criativo brasileiro, em vários campos, influenciou minha sensibilidade e poética, na escrita tanto como na vida. Juntos, sonhamos. E sonhar é fazer, mesmo desfazendo. Sonhar é universal. Eu torço junto com esse grande país que é o Brasil, para ele e eu termos a força de lembrar-nos do passado, olhando firmes para um futuro maior e melhor, pois cada revolução, embora política, há de ser íntima, e, até, poética:

Eu te conheço.

Conheço teu cheiro, teu olhar, teu jeito

Conheço-te de cor-po de alma, conheço te inteira

Tu andas sempre para frente sem olhar para trás

E sempre para trás sem olhar para frente

Tu ficas oscilando

Previsível e fugaz

 

Eu sigo teus passos, e tu descom-passas

Observo teu balanço, te vejo de costas

Andas alegre, andas triste, andas

Andas e finges que me ignoras

Eu te conheço.

 

Conheço tua voz, tua pele, tua mente

Conheço o que faltas, o que calas, o que sentes

 

Dormes e te acaricio

Dormes e apenas resisto

De tão linda tu ficas

Com os olhos fechados

 

Estas tão jovem de tão velha

Tão pequena de tão grande

Cabe em ti meu desejo consciente

De tocar na tua inocência

De tocar em ti

 

Memória.

 

Teus saltos são mais altos que a montanha

Que há de subir

Tuas mãos são mais enrugadas que a história

Que há de mudar

 

Vê agora o que eu vejo

Sente agora o que eu sinto

Olha por fora e olha por dentro

 

Gira o teu corpo na minha direção

Abraça me e não te assustas, eu te protejo

Agora, para sonhar, eu te acordo

 

Conheço as linhas sinuosas do teu corpo

Conheço o sopro de fogo da tua boca

Há de te lembrar

 

Lembra-te, lembra-te sem pensar

De nossa promessa

Lembra-te e toma coragem

O tempo passa, cresce, passa, resta, gruda, passa, doi

 

Não percas Memória, não me percas de vista

Que eu sou Revolução.

Fragmento do blogue www.lapassionselonm.blogspot.ca, de Martha Tremblay-Vilão.

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