Bernard Attal

Um cineasta francês de coração brasileiro

Por Juliana Dalla

Cena do filme “A Coleção Invisível”, com Vladimir Brichta

A  Wave + teve o prazer de entrevistar o cineasta francês Bernard Attal, que presenteou a plateia de Toronto com o filme “A Coleção Invisível”  na noite de abertura do festival de cinema BRAFFTV 2013. Nesta rápida entrevista, ele fala um pouco do Brasil, dos seus filmes e das suas inspirações.

Você é francês, mas mora no Brasil há dez anos. O que atraiu você para o Brasil?
Bernard Attal – Viajei pela primeira vez ao Brasil em 1997 e me instalei em Salvador para morar em 2004. Adolescente, eu li  muito Jorge Amado.  Seus romances desenvolveram na minha cabeça um universo imaginário que um dia resolvi confrontar com a realidade.

De estrangeiro, você passou a ser um francês abrasileirado, digamos assim. Ocorreram mudanças na sua visão de Brasil assim que você começou a vivenciar a realidade brasileira?
Bernard Attal – Encontrei no Brasil muitos traços que Jorge descreveu nos livros dele e que me levaram a ficar e morar lá: a doçura do povo brasileiro, seu humor, sua informalidade, sua dignidade. Mas descobri também lados menos atraentes: um preconceito social grande, um sistema judiciário inoperante, e uma fascinação esquisita pelo modo de viver norte-americano.

No seu primeiro longa-metragem, “A Coleção Invisível”, você narra um Bahia que só quem é baiano consegue captar. Assistindo ao seu longa no festival BRAFFTV, em Toronto, percebi que muitos espectadores brasileiros se admiraram pelo fato de você ter conseguido se apropriar da Bahia de modo tão genuíno. Como isso foi possível, você saberia explicar?
Bernard Attal – Durante a elaboração do roteiro, estava muito atento a ficar longe do folclórico e dos clichés. Aborrece-me observar que, no exterior, o Brasil ainda se identifica principalmente com a violência urbana, o carnaval e o futebol, enquanto se trata de um pais com uma riqueza cultural e uma diversidade impressionantes. No quotidiano, eu circulo muito entre as várias classes sociais: minha esposa vem de uma família modesta de Salvador, eu tenho amigos políticos, padres, artistas, empresários etc… Em resumo, no meu modo de viver, eu rejeito completamente a cultura do “condominium”, que cria muros entre os cidadãos, e procuro enxergar todos os componentes da sociedade brasileira.

Cineasta Bernard Attal

“A Coleção Invisível” é baseada num conto de Stefan Zweig, que se passa na Alemanha. Por que você resolveu adaptar esse conto estrangeiro para o cinema brasileiro? 
Bernard Attal – Estou fascinado pela capacidade dos brasileiros de enfrentar os altos e os baixos da vida com humor e dignidade. Eu reconheci esse traço nos personagens do conto. Zweig também aborda com muita sutileza a questão do valor relativo da mentira e da verdade. Ao contrário dos americanos, para quem a verdade é sagrada e a mentira diabólica, os brasileiros sabem que a linha de separação entre as duas é mais sutil e mais subjetiva.

Além de “A Coleção Invisível”, você também já dirigiu curtas e documentários. Você poderia falar umpouquinho sobre o seu percurso filmográfico?
Bernard Attal – Eu dirigi dois curtas no Brasil (“29 Polegadas”, “Ilha do Rato”), um nos EUA (“Passeio de Bicicleta”) e um documentário pra TV pública (“Os Magníficos”), a partir da matéria da pesquisa feita para “A Coleção Invisível”.

Quais cineastas ou filmes brasileiros influenciaram sua maneira de fazer cinema?
Bernard Attal – Eduardo Coutinho e Leon Hirzman em primeiro lugar, e tenho uma admiração grande pelo “São Paulo S.A.”, do Luiz Person.
Algum novo projeto em fase de produção, sobre o qual você possa comentar com aqueles com vontade de ver mais Bernard Attal nas telas?
Bernard Attal – A questão da fé religiosa na vida dos brasileiros me intriga bastante. Só no Brasil, se escuta toda hora expressões como “Se Deus quiser”, “Graça a Deus…”. Quero contar a trajetória de um homem de bem que se desvia do seu caminho, cai no fundo do poço mas não perde sua fé.

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