O Brasil, enfim, encontra sua voz

O Brasil parece estar rompendo uma mentalidade perigosa: a de que não podemos mudar nada. 

Por Flávio Nienow

“O gigante acordou”, dizia o cartaz na manifestação em apoio aos brasileiros na Nathan Phillips Square, em Toronto. Mesmo no Canadá, a quase 10 mil quilômetros de distância, é possível sentir a força do movimento que está ocorrendo no Brasil e atraindo a atenção da mídia internacional.

O sorriso no rosto das pessoas no protesto, os cartazes com mensagens em português e inglês, a esperança e o orgulho no ar mostram que algo está mudando. Pela primeira vez nos tempos contemporâneos, os brasileiros se unem em uma só voz. Não há ricos, não há pobres, não há classe média; há somente brasileiros, lutando pelo bem comum.

Essa união por si só mostra uma mudança em um padrão de comportamento no Brasil, um padrão que era perigoso. O povo brasileiro aceitou calado por muito tempo o salário exorbitante dos políticos, o alto custo de vida, a insegurança, a corrupção e o baixo salário mínimo. Esse pensamento de que não podemos mudar nada é como um câncer. Ele nos corrompe, nos fragiliza e nos imobiliza no tempo.

Enquanto, em diversos países do mundo, os protestos são formas legítimas de impor mudança, existia uma cultura de aceitação no Brasil. Os gastos exorbitantes do governo em obras relacionadas a Copa do Mundo expuseram a indiferença do nosso governo. A indiferença do governo, que expulsa moradores de suas casas para construir estádios, permite que milhões de pessoas ainda passem fome, um sistema educacional longe da qualidade de países desenvolvidos e um sistema de saúde que não atende às necessidades da população.

O novo aumento do transporte público foi a gota d’água que os brasileiros precisavam para se unir contra tudo que acontece de errado no nosso país. Há um novo sentimento no ar. É tangível; palpável. É possível ver esse sentimento na expressão dos brasileiros nos protestos que estão ocorrendo ao redor do mundo e na garra dos brasileiros que não param de protestar nem sofrendo com gás lacrimogêneo ou balas de borracha.

Esse sentimento não deve parar. Ele mostra ao governo que nós não mais aceitaremos calados as decisões que não atendam ao bem comum. O povo brasileiro está percebendo que tem força para fazer a diferença. É exatamente por isso que essa manifestação é tão importante. A manifestação pode não resolver todos os problemas do nosso país, mas a percepção de que juntos podemos impor mudança é um divisor de águas para os brasileiros.

FLÁVIO SACHETT NIENOW

Flávio (26) é brasileiro e formado em Comércio Internacional em Porto Alegre. Ele se mudou para o Canadá em 2012 para se tornar jornalista, fazendo uma pós-graduação em jornalismo em Terra Nova e se mudando para Toronto.
Twitter: @flavio_nienow
Contato: flavionienow@gmail.com
(416) 524-5752
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