A Fernanda do Estácio

Leia crítica sobre A Dama do Estácio, curta estrelado por Fernanda Montenegro.

Fernanda Montenegro no set de A Dama do Estácio

Por DarioPR

A emoção toma conta deste espectador ao ver um filme como este. Ele diz tantas coisas tão íntimas e tão caras, que parece falar direto ao coração deste pobre cronista. A Dama do Estácio é Fernanda Montenegro, é Leon Hirszman, é Nelson Rodrigues, é Aracy de Almeida, é Noel Rosa .. é a quintessência do Rio de Janeiro. E, num processo metalinguístico analógico e cíclico, é cinema que fala de ator, que fala de teatro, que fala de música, que fala de arquitetura, que fala de história, que fala de cinema, e assim sucessivamente… É arte pura em estado de (trans)fusão, para sempre se retroalimentando.

Xavier e Montenegro em cena

Como será que começa a história dessa dama? Nos versos da canção de Noel Rosa? Nas frases da peça de Nelson Rodrigues? Não sei precisar muito bem… mas com certeza começa no antigo bairro do capitão Estácio de Sá, bravo militar português, fundador da cidade do Rio de Janeiro, e primeiro governador da Capitania de mesmo nome. É nessas ruas centenárias que vive a personagem Zulmira, uma prostituta idosa, ressuscitada da peça A Falecida (1953) de Nelson Rodrigues.

Como na peça, Zulmira está obcecada pela ideia da própria morte, e não quer deixar pra ninguém o ônus de seu féretro. Não aceita morrer sem antes adquirir um bom e caro caixão, que lhe garanta o conforto em seu descanso eterno.

Para realizar seu desejo mórbido, Zulmira busca a ajuda de um velho amigo e amante, Timbira. Mas ele se recusa a compactuar com tamanha esquisitice. De fato, ele não acredita na morte iminente e autoproclamada de Zulmira, pois quer casar-se com ela. E lhe propõe tirá-la da prostituição e fazer dela uma verdadeira “dama”.

Mas Zulmira recusa. Sabe que não foi feita para núpcias. Todavia, imersa em sua mórbida obsessão, tem a ideia de aceitar casar-se com a seguinte condição: o pretenso noivo deve doar-lhe o tão almejado jazigo perpétuo.

Na peça, Zulmira morre tuberculosa e recebe do marido um enterro de quinta categoria. No filme A Falecida, de Leon Hirszman, a história mantem-se fiel a peça. A mesma Fernanda Montenegro que interpretou Zulmira em 1965, em sua primeira incursão no cinema, retoma o personagem 46 anos depois, no auge e vigor de seus 81 anos.

A Dama do Estácio é uma grande homenagem a A Falecida (peça e filme), ao bairro do Estácio, referenciado na canção imortal de Noel Rosa, e a Fernanda Montenegro, a estrela maior da dramaturgia brasileira.

A dama do Estácio – trailer from imagemtempo on Vimeo.

Nelson, Joel e Rafael

Além de Fernanda, o curta tem os atores Nelson Xavier e Joel Barcellos. Ambos participaram do filme de Hirszman em 1965. Nelson também volta no mesmo personagem, Timbira, agente funerário mulherengo e sedutor.

A novidade fica por conta de Suely, um travesti que divide apartamento com Zulmira. O ator Rafael Souza-Ribeiro fez um belo trabalho na composição da personagem e mereceu o prêmio de melhor ator na categoria de Curta Metragem Nacional do 9º Amazonas Film Festival.

Rafael antes e depois em cena com Fernanda.

Diretor

Eduardo Ades tem 30 anos e é sócio-fundador da produtora Imagem-Tempo. Formado em Cinema pela UFF, ele começou a carreira como curador e produtor executivo de mostras e festivais de cinema. Nos últimos anos se voltou para a produção audiovisual. Produziu curtas como “Tecnicolor” (Luciana Penna, 2008), “Depois das nove” (de Allan Ribeiro, 2008) e “Apocalipse de verão” (Carolina Durão, 2012), e dirigiu algumas peças publicitárias. A Dama do Estácio é sua primeira experiência como diretor de um filme de ficção, em que é também roteirista e produtor. Começou com dois pés direitos.

Curta com cenas comoventes

O curta tem 22 minutos, foi filmado em junho de 2011 e lançado esse ano, custou 80 mil reais e vem ganhando prêmios nos vários festivais nacionais e internacionais por onde passa. Tem defeitos, claro, mas que ficam pequenos diante dos grandes acertos. O maior problema a meu ver está na estrutura narrativa, que acabou preterida em função dos momentos sublimes e poéticos que ocupam quase todo o tempo do filme. Não ficou claro pra mim, por exemplo, com quem Zulmira acabou se casando, se com Joel ou com Timbira.

O filme é recheado de cenas comoventes e memoráveis em que brilham o talento e a experiência de Fernanda Montenegro em performances magistrais. Cito aqui três dessas cenas que merecem ser assistidas com muito carinho.

A primeira é o magnífico banho de chuva que toma Zulmira ao tentar tirar as roupas do varal diante de uma chuvasca que começa a cair. Em A Falecida, Zulmira também tomou um banho de chuva no início da história, a caminho da cartomante…

O segundo momento inesquecível é a sequência no botequim pé-sujo. Filmada numa locação real, mostra Zulmira e demais personagens numa descontração tal, que fiquei me perguntando se a tomada que valeu foi ensaiada ou improvisada. À frente, o barulho e a luz tosca do botequim. Ao fundo, a voz distorcida de Whitney Houston entoando “The Greatest Love of All”… E por fim, a cena final do filme em que Zulmira, na carroceria de uma kombi, vestida de noiva sobre o tão desejado caixão e ladeada por Suely, passeia alegórica pelas ruas do bairro. O povo do Estácio acompanha o cortejo. Pairando acima de tudo, a voz sublime de Aracy de Almeida debulha os versos de Noel Rosa…

Nasci no Estácio.

Eu fui educada na roda de bamba,

Eu fui diplomada na escola de samba.

Sou independente, conforme se vê ..

Nasci no Estácio.

O samba é a corda e eu sou a caçamba,

E não acredito que haja muamba

Que possa fazer eu gostar de você ..

Você tem vontade

Que eu abandone o largo de Estácio

Pra ser a rainha de um grande palácio

E dar um banquete uma vez por semana ..

Você tem vontade

Que eu abandone o largo de Estácio

Pra ser a rainha de um grande palácio

E dar um banquete uma vez por semana ..

Eu sou diretora da escola do Estácio de Sá,

E felicidade maior neste mundo não há.

Já fui convidada para ser estrela do nosso cinema.

Ser estrela é bem fácil,

Sair do Estácio é que é

o xis do problema.

Fernanda Montenegro, Joel Barcellos e equipe do curta A Dama do Estácio.

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