Zelito Viana

Entrevistei o cineasta em Manaus durante o 9º Amazonas Film Festival, do qual ele foi Presidente de Honra este ano.

Zelito Viana (de branco) e Robério Braga, Secretário de Estado de Cultura/AM (foto: Wesley Andrade)

Por DarioPR

O cineasta brasileiro José Viana de Oliveira Paula, mais conhecido como Zelito Viana, dirigiu oito filmes – entre os quais Villa Lobos – Uma Vida de Paixão (2000) e JK – Bela Noite para Voar (2005) – e diversos programas de televisão, como Chico Total e Chico Anysio Show.

Produziu quatorze filmes, um seriado televisivo e oito curtas-metragem. Nascido em Fortaleza, em 05 de maio de 1938, é filho de Francisco Anysio de Paula e Haydee Viana, irmão do humorista Chico Anysio e da atriz e comediante Lupe Gigliotti, tio da atriz e diretora Cininha de Paula, do roteirista e ator Bruno Mazzeo e do comediante Nizo Neto. Casado com a produtora Vera de Paula e pai da diretora Betse de Paula e do ator Marcos Palmeira.

O que representa ser o Presidente de Honra do Amazonas Film Festival?
Zelito – Representa uma redundância. É uma honra pra mim ser o Presidente de Honra (risos). É um festival de grande importância no cenário nacional, e internacional, sempre com grandes filmes. Então, além de ser um grande prazer, me sinto muito honrado. Mas, pretendo em breve estar aqui não presidindo, mas competindo.

 Isso quer dizer que há um projeto em andamento?
Zelito – Sim, e estou até pensando em trazer o projeto pra ser executado aqui, pois a história fala de um ator famoso de televisão que de repente recebe um telefonema dizendo que seu pai morreu num lugar bem distante, numa caixa prego qualquer, que pode muito bem ser aqui na Amazônia. Eu soube que o estado do Amazonas tem 1,5 milhões de km², e 3,5 milhões de habitantes, sendo que 2 milhões estão aqui em Manaus. Imagine a imensidão de áreas desertas, sem quase ninguém. Isso deve dá uma solidão enorme, o que é fantástico.

 E como vai se chamar esse filme?
Zelito – Chama-se SEDUÇÃO. Ainda nem aprovei nas leis. Acabo de terminar o roteiro. É meio autobiográfico. Quando meu pai (Francisco Anysio de Oliveira Paula) morreu, eu conheci oito novos irmãos. Ele tinha várias famílias secretas pelo Brasil a fora. O que atrapalhou o esquema dele foi meu irmão Chico Anysio, que é Francisco Anysio de Oliveira Paula Filho. Daí ele teve que assumir a paternidade, não só pelo nome idêntico como também pelo orgulho de ser pai do Chico Anysio. Não deu pra negar. Mas ele, coitado, sofreu muito por isso lá com a mulher dele .. (risos). Então eu resolvi fazer um filme que conta mais ou menos essa história. É uma pessoa do Rio, uma pessoa urbana, cujo pai morre num lugar ermo e distante, que a princípio seria o Rio Araguaia, mas eu estou querendo mudar pro Rio Negro. Ele não tem nada a ver com a floresta, com a vida não urbana, e vai em busca da história do pai, das mulheres do pai, e dos irmãos que ainda não conhece. Nesse processo ele vai sofrendo as influências de uma outra forma de ver e de viver, e vai se transformando. No final, ele volta pra ser ator de televisão na cidade grande, mas já não é a mesma pessoa.

É o único projeto do momento?
Zelito – Que nada. Acabamos de lançar em DVD um documentário – Augusto Boal e o Teatro do Oprimido. E finalizamos um outro que vai passar no Canal Brasil, um curta de ficção chamado Sonhos de Futebol, um projeto muito interessante feito no Rio com garotos menores infratores do DEGASE, que hoje a gente não pode dizer que estão presos porque é politicamente incorreto, ele estão cumprindo “medidas socioeducativas” na Ilha do Governador, na instituição Padre Severino. Eu fiquei seis meses lá com eles ajudando a fazer o filme, que eles mesmos roteirizaram, inspirados na peça Chapetuba Futebol Clube, do Vianinha. O futebol era o ponto de interseção entre eles. Todos queriam ser jogador. E o making-off, que é muito maior que o filme, virou um documentário, chamado Caminhos do Sonho, que está inédito. Ambos vão passar no Canal Brasil seguidos de um debate. Ainda não sei quando.

 Mas eu fiquei sabendo de outro trabalho teu, ainda inédito ..
Zelito – Ah sim, é verdade. Há um trabalho meu pronto que está inédito. Quer dizer, passou apenas no Festival de Recife. É um documentário que fiz em Pernambuco sobre jovens musicistas da favela do Coque. Chama-se Sons da Esperança, tem uns 80 minutos e ficou espetacular. Ele é estruturado da seguinte maneira: nos primeiros 40 minutos não tem nenhuma música. É só a favela e o pessoal se preparando pro concerto. Depois vem o concerto inteiro, aí são 40 minutos só de música. Acho que é uma das melhores coisas que eu fiz na vida. É a favela mais pobre do Recife. E saiu de lá uma orquestra sinfônica que tem um som extraordinário. Gravei profissionalmente com 60 microfones, equipe de São Paulo, e ficou sensacional.

 E sobre suas trilhas sonoras?
Zelito – Eu fiz um documentário chamado Arte Para Todos, que vai do Barroco a Tunga, de Alejadinho a Arte Contemporânea, para esse filme eu montei a trilha sonora. Então é correto dizer que eu resolvo a minha frustração na música fazendo cinema. O Villa-Lobos por exemplo, eu fiz todo a partir da música. As sequências eram criadas para encaixar naquelas músicas. E aconteceu inclusive uma cena interessante em que um personagem deveria cair em determinado acorde. A ideia é que a gente ia sincronizar na ilha de montagem. Por uma incrível coincidência, o cara caiu justo no momento do acorde. Não precisou sincronizar nada. Eu filmava com a música na cabeça. Nós ouvíamos a música juntos antes de fazer a cena. Era assim.

Já no Arte Para Todos foi o contrário. Era um documentário de artes plásticas, eu via a sequência e pensava que música ia colocar ali. Então foi divertidíssimo. É o maior barato ver o filme porque você fica vendo imagens belas e músicas ótimas. Aí não tem erro! (risos).

 Voltando ao passado, como foi seu começo no cinema? E a experiência como Produtor do Glauber. Como foi isso?
Zelito – Quando comecei no cinema eu era engenheiro e não tinha muita noção do que estava fazendo. Eu não sabia que ia ser cineasta, nem o que eu queria ser. Eu na verdade estava procurando saber. E tive a sorte de ter trabalhado com o Glauber.

Quem me levou para o cinema foi o Leon Hirszman, que era meu colega da engenharia. Leon me deixou na mão do Glauber Rocha, que era um gênio. Sem nenhuma dúvida uma pessoa superdotada, como foram Castro Alves, Villa-Lobos, Darcy Ribeiro, Oscar Niemeyer. Glauber inclusive sofria muito com isso, porque todo mundo que tem esse gênio, acaba tendo problemas, simplesmente porque as pessoas não os compreendem. Enfim, eu comecei com o Glauber, e caiu em nossa mão o roteiro de Terra em Transe. Uma coisa que eu me lembro bem é que, quanto mais líamos o roteiro, não só eu como também o Dib, o Luiz Carlos etc, a gente tinha pouco mais de 20 anos de idade, mas já sabia que estava fazendo uma obra-prima. Naquele tempo era muito agradável fazer um filme. Só quem ganhava dinheiro na equipe era o Dib. O resto era todo mundo amador. Os atores ganhavam um cachê “simbólico”. Era uma aventura e tinha um aspecto lúdico muito grande. E isso, o cinema de hoje infelizmente perdeu.

 Como você ver o cinema brasileiro das últimas décadas?
Zelito – O governo Collor acabou com o cinema brasileiro durante um período. Eles fecharam a Embrafilme e uma cinematografia que produzia cem filmes por ano passou a fazer um ou dois. E esse hiato durou uns três ou quatro anos.

 Você crê que foi um ato de caso pensado? Ou foi mais o resultado da inocência política daquele governo?
Zelito – Olha, aí eu não sei te dizer. Agora, tem um bandido na história, que foi o Ipojuca, que era o secretário e detestava o Cinema Novo, era contra a gente, era contra a Embrafilme .. Então, com certeza, teve uma ideologia por trás. Uma ideologia de direita! Mas tudo bem. Isso aí já passou. A consequência disso foi que as pessoas largaram o cinema, porque não tinham como sobreviver fazendo filmes. Eu por exemplo fui parar na televisão. Outros foram para os comerciais. Então, quando o cinema retomou, os profissionais do cinema eram as pessoas que vinham dos comerciais. Então, produzir cinema passou a ser como fazer um comercial por dia. O custo de um filme foi multiplicado por 100.

 Como se deu esse “encarecimento” da produção cinematográfica brasileira?
Zelito – Os custos deram um pulo extraordinário porque os profissionais começaram a exigir muito. As equipes foram ficando mais caras. Eles passaram a querer comida no set, transporte assim e assado, e foram ficando cada vez mais e mais exigentes. E aí surgiram as Leis de Incentivo Fiscal pra agravar ainda mais a situação. O profissional diz: Por que você não me paga “tanto”? O dinheiro não é seu, é da Petrobrás! E aí? E o resultado é que hoje a gente perdeu o charme de fazer um filme bom e barato, com qualidade internacional, disputando nos maiores festivais do mundo. Esse charme a gente não tem mais. Quem consegue fazer isso hoje são os Argentinos (risos). Por outro lado, as Leis de Incentivo foram boas no sentido de permitir a retomada do Cinema Brasileiro. Mas elas carregam dentro de si um vício.

 Você vê com pessimismo a qualidade das futuras produções do cinema brasileiro?
Zelito – Não. Sou uma pessoa otimista, acho que o que vai modificar mesmo é isso aqui (toca no meu gravador/celular): os meios de produção. Antigamente o sujeito para fazer um filme precisava ter acesso a um grande aparato tecnológico, a uma câmara de 35mm, equipamentos de luz, rolos e mais rolos de película, gravadores .. fazer um efeito especial demandava uma dificuldade estúpida .. Agora já não. Daqui a pouco você vai estar filmando com um celular com a mesma qualidade de antes. Isso não resta dúvida. Está chegando .. Já está aí .. A película já acabou. A Kodak já não vai produzir. O cinema vai ser todo digital. Isso vai democratizar efetivamente o uso do veículo. Então o cinema fatalmente vai mudar.

 Você acha que a Distribuição dos filmes e o número de salas de cinema tendem a melhorar?
Zelito – Tem que melhorar. Temos um décimo das salas que tem o México, com uma produção maior. Precisamos ter muito mais salas, de projeção digital, e com baixo preço, porque por enquanto a sala digital ainda é cara .. e eles fazem de tudo pra que continue cara. Por isso inventaram o digital 3D. Mas me disseram hoje que com mil dólares já se compra uma câmera 3D. É uma briga entre o marketing e a tecnologia pra ver se conseguem manter as coisas caras, mas as coisas estão barateando mesmo. No meu tempo uma câmera profissional custava 150-200 mil dólares. Hoje uma câmera de 20 mil já é superprofissional. Sem falar que não precisa mais do negativo. E um efeito especial se cria com um click. Hoje em dia se você errar 4 diagramas pra cima ou 4 diagramas pra baixo, não tem problema, a gente concerta na edição. Enfim, as coisas vão caminhar no sentido da democratização mesmo, baixando os custos e melhorando o acesso ao produto.

 E a Internet. Veio contribuir?
Zelito – Claro. Hoje onde você estiver no mundo pode acessar a internet, ler ou fazer download do filme ou do livro que você quiser. Eu para estudar cinema tive que ir para a Cinemateca de Paris. Era o diabo conseguir ver um filme bom. Hoje você vai no Google, escreve lá Murnau, e ver todos os filmes dele, ler tudo sobre ele, e tem tanto material que você vai enlouquecer.

 E as novas tecnologias?
Zelito – Outro dia eu estava no avião e uma criança de mais ou menos um ano e meio brincava com um ipad no colo da mãe. O comandante anunciou que os aparelhos eletrônicos deviam ser desligados. E a criança caiu num berreiro. Como vai ser a cabeça dessa criança daqui a 10 anos? A gente não sabe. A gente está no “olho do furação”. Você lembra que o Dick Tracy falava com o agente dele pelo relógio? Quem diria que em tão pouco tempo todo mundo ia poder ser o Dick Tracy!? E o que vai ser daqui a 10 anos? Não sei. Não faço a menor ideia.

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