Os Corações Sujos de Sganzerla na Boca do Lixo

Enfim chegamos ao último dia dessa Mostra de Cinema Brasileiro que se destaca pelo esmero na curadoria e diversidade dos bons títulos selecionados.

Por DarioPR

Para o último dia a mostra reserva mais três pérolas da cinematografia brasileira:

  • 14h – O Bandido da Luz Vermelha (The Red Light Bandit) – fic – 92 min
  • 15h50 – Corações Sujos (Dirty Hearts) – fic – 107 min
  • 18h – Rio Anos 70 (Rio Disco 70) – doc – 75 min

É domingo, e a programação do último dia começa mais cedo, pois à noite tem FESTA DE ENCERRAMENTO! Às 20h no Revival Bar – 783 College Street, animada pelo show do cantor e compositor carioca Pedro Luis.

Cena de Corações Sujos

 

Corações Sujos, drama de Vicente Amorim, com Eduardo Moscovis, baseado no livro homônimo de Fernando Morais e com roteiro de David França Mendes, é um título que salta aos olhos na programação de hoje.

Em 1945, o tratado de rendição assinado pelo imperador japonês Hirohito ao general americano Douglas MacArthur marcou o fim da Segunda Guerra Mundial. Certo? – Errado. Para grande parte dos imigrantes japoneses que viviam no interior de São Paulo, o Japão havia vencido a guerra. Eles eram a maior colônia japonesa fora do Japão. Os que acreditavam na derrota eram chamados de traidores da pátria, apelidados de “corações sujos”, e perseguidos por aqueles que endeusavam o imperador e criam – como uma crença mágica – na vitória do Japão. É neste contexto que vive Takahashi (Tsuyoshi Ihara), dono de uma pequena loja de fotografia e casado com Miyuki (Takako Tokiwa), uma professora primária. Incitado pelo coronel Watanabe (Eiji Okuda), ele se torna um dos vingadores que pregam a supremacia japonesa e começa a assassinar os que acreditam que o país foi derrotado.  Esse drama é contado pela esposa Miyuki, que vive a dorolosa destruição de seu casamento, enquanto assiste perplexa a seu marido, um pacato imigrante, transformar-se num assassino.

Corações Sujos ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro no Festival Himi Kizuna, no Japão. Direção, produção e elenco estão em estado de graça. Homenageio a toda a equipe citando aqui apenas a atriz nipônica Celine Fukumoto, de 12 anos, que se destaca no papel da pequena Akemi. Nascida em Tóquio, filha de pais brasileiros e avós japoneses, foi trazida pra São Paulo ainda bebê. Encontrou no filme sua primeira oportunidade para interpretar. Não teve dúvida. Afiou o japonês para dar conta das filmagens, e brilhou em cena.

É surpreendente ver um filme de produção nacional captando e entendendo a alma de um Nihon-jin com tamanha perfeição. Chama a atenção a riqueza dos detalhes que retratam a cultura nipônica e a precisão com que a época é reconstituída. O filme é belo, comovente, e torna-se difícil segurar a emoção. Nos faz pensar sobre como crenças e preconceitos podem nos transformar em algozes de nós mesmos. IMPERDÍVEL.

Paulo Villaça e Helena Ignez em cena de O Bandido da Luz Vermelha

 

O Bandido da Luz Vermelha é um filme policial brasileiro de 1968, dirigido por Rogério Sganzerla, que também assina argumento, roteiro e diálogos, quando tinha apenas 22 anos. Inspirado nos crimes do famoso assaltante João Acácio Pereira da Costa, apelidado pela imprensa de “Bandido da Luz Vermelha”. Prazerosamente sedutor em sua simplicidade, este filme é uma espécie de “Cidadão Kane” brasileiro, marco do que hoje conhecemos por Cinema Marginal. Já se vê nele o método de criação de Sganzerla, a musicalidade do olhar, o estilo inovador na montagem e a parceria com a atriz e companheira de toda a vida, Helena Ignez.

Conta a história de um assaltante de casas luxuosas de São Paulo que desconcerta a polícia ao utilizar técnicas peculiares de ação. Carrega sempre uma lanterna vermelha, conversa longamente com suas vítimas, estupra as vítimas mulheres e protagoniza ousadas fugas. Depois gasta o lucro do roubo da maneira mais extravagante que pode. Desenvolve um relacionamento mais intenso com Janete Jane, se aprofunda no mundo crime, se liga a um político corrupto, acaba sendo traído .. perseguido e encurralado, encontra somente uma saída para sua carreira de crimes: ??? (juro que não vou contar).

A história é contada como se fosse um noticiário policial popular de um programa de rádio. A narração off em três vozes (dois narradores radialistas e a voz em primeira pessoa do protagonista) dialoga criticamente com as imagens na tela, imprimindo o tom final de deboche e cinismo que transforma o filme numa agradável experiência estética. Os enquadramentos são ótimos em sua ingenuidade e a fotografia em preto e branco é eficazmente usada. A trilha sonora também é genialmente simples.  Faz uma mistura despretensiosa de temas clássicos com Asa Branca, Vereda Tropical, Índia, Rock Around the Clock, Brigas etc. O filme traz ainda a participação especialíssima de Roberto Luna em registro histórico cantando Molambo, Encontro com a Saudade, Sabor a Mi e Contigo.

Paulo Villaça faz um protagonista concentrado, transpira intimidade com a linguagem cinematográfica e acaba conquistando totalmente a empatia do espectador. Helena Ignez, inspirada, embeleza sedutoramente a tela como Janete Jane, a namorada oficial do bandido Luz. Coincidência ou não, é impossível ver O Bandido da Luz Vermelha hoje e não referenciá-lo elegantemente ao filme Boca, de 2010. Ambos mergulham no universo criminoso de personagens que optam por um destino trágico como gangster na lendária Boca do Lixo. Só que Sganzerla traz a Boca do Lixo para as telas muito antes dela se tornar um pólo do cinema nacional.

Quem não tiver a sorte de ver esse filme em Toronto na telona. Pode, como eu, fazê-lo no Youtube, na íntegra, em cópia digitalmente restaurada pelos Estúdios Mega em 2007, sem perder um minuto do prazer de ver. Taí o link: http://www.youtube.com/watch?v=UfUpwNO0KCg.

Pedro Luis no show Tempo de Menino

 

Fechando o evento, o 6º Brasil Film Fest brinda o público com um show de Pedro Luís, apresentando  seu último CD Tempo de Menino. Um dos fundadores da banda Pedro Luís e a Parede e do Monobloco, Pedro Luis será acompanhado em Toronto por Marcelo Vig (bateria e programação), Guila (baixo) e Leo Saad (guitarra e teclado).

O repertório do show inclui canções de Pedro Luis com vários parceiros: “Nas Estrelas” (com Sergio Paes), “Crise” (com Ivan Santos), “A Medida do Meu Coração” (com Ricardo Silveira), e “Tá? “(com Roberta Sá e Carlos Rennó). Na faixa-título “Tempo de Menino”, o artista homenageia o bairro carioca da Tijuca, onde nasceu e foi criado. Também estão no repertório “Menina do Salão de Beleza” – da trilha sonora da novela “Avenida Brasil” –  e “Bela Fera”, composta por Pedro para a abertura da minissérie “As Brasileiras”.

Além das músicas do álbum “Tempo de Menino”, o concerto apresenta sucessos da carreira do artista com a banda Pedro Luis e a Parede, como “Alma” e “Caio no Suingue” (do álbum de 1997, “Astronauta Tupi”). E além disso, “Noite Severina”, gravada com o ícone brasileiro Ney Matogrosso, e “Miséria SA” (sucesso da banda O Rappa). Pedro também resgata a faixa “Incêndio”, da época em que ele era membro da banda Urge, nos anos 80. Não tenho dúvida de que será um show memorável. E se sua esposa Roberta Sá aparecer para uma canja surpresa, hein? Aí ficaria divino ..

Quem estiver hoje em Toronto, me faça o favor de não perder!

Grande abraço

.DarioPR

PS> Futuramente volto aqui com novas críticas e comentários sobre Paraísos Artificiais e sobre o documentário Rio Anos 70, que ainda não vi (será que encontro no youtube?).

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