Carmem Miranda e Wagner Moura na tela

Chegamos ao sábado, e agora o Brazil Film Fest começa mais cedo e apresenta 4 sessões diárias. 

Por DarioPR

Carmem Miranda em cena

Hoje temos:

  • 15h – Carmen Miranda: Bananas is My Business – doc – 91 min
  • 17h – Muita Calma Nessa Hora (Take It Easy) – fic – 104 min
  • 19h15 – A Busca ou A Cadeira do Pai (Father’s Chair) – fic – 93 min
  • 21h15 – Paraísos Artificiais (Artificial Paradise) – fic – 96 min

Carmem Miranda – Banana is my Business é um docu-drama de Helena Solberg, cineasta carioca radicada nos EUA, onde firmou-se como produtora e diretora de documentários. Seus primeiros trabalhos – A entrevista (1966), Simplesmente Jenny (1975), The double day (1975) – já investigavam os papéis femininos na sociedade moderna. A partir dos anos 80, fez uma série de documentários sobre temas políticos. Mas foi com Carmen Miranda – Bananas is my Business, de 1994, que Helena redescobriu o Brasil.

O filme narra, mesclando aspectos de documentário e ficção, a história de ascensão e queda da atriz e cantora Carmen Miranda. Exportada para os EUA como a “Brazilian Bombshell”, ela tornou-se estrela da Broadway e Hollywood nos anos 40. O filme investiga sua importância para toda uma geração de brasileiros e norte-americanos. Há uma equilibrada costura entre as bem escolhidas cenas de arquivo e os depoimentos de quem conheceu a artista, como a sua irmã Aurora, tudo alinhavado com impressões em off da própria diretora – como na cena do velório. A presença de atores representando diversas fases da vida de Carmen contribui para tornar o documentário mais interessante e dinâmico.

Ganhou os prêmios de melhor filme pelo júri popular, da crítica e o especial do júri no Festival de Brasília; ganhou o Gold Hugo Award de melhor docu-drama no Festival de Chicago; teve lançamento comercial nos EUA em 1995 e foi selecionado entre os 10 melhores filmes de não-ficção pelo Andrew Sarris. Esse documentário espetacular atinge sua maioridade (18 anos) em 2012. Já foi visto inúmeras vezes pelo público brasileiro, pois vive sendo reprisado em nossa TV a cabo, mas envelheceu sem perder o vigor artístico, assim como o fez a própria Carmem.

Wagner Moura e Mariana Lima em Father’s Chair

A Cadeira do Pai é um road-movie brasileiro com ênfase dramática e pitadas de humor e suspense. Teve première mundial em Sundance em janeiro deste ano, onde já foi indicado ao Grande Prêmio do Júri. Semana passada teve sua primeira exibição brasileira no Festival do Rio e arrebatou a platéia que lotava o Odeon. Assinado pela produtora paulista O2, de Fernando Meirelles, o filme custou cerca de 5 milhões e foi quase todo rodado em Paulínea. A estréia no circuito brasileiro está agendada somente para março de 2013.

O roteiro de Elena Soarez e Luciano Moura é um dos trunfos da fita: simples, bem construído, sem efeitos alucinógenos nem reviravoltas mirabolantes, conta mais uma história de pai-e-filho – que pelo jeito tornou-se um tema recorrente na cinematografia brasileira atual. Theo, um médico de 35 anos, arrogante e controlador, quer obrigar a ex-mulher a colocar azulejos novos na piscina e forçar o filho adolescente a fazer intercâmbio na Nova Zelândia. Após presenciar mais uma briga dos pais recém-separados, Pedro foge de casa no final de semana em que está completando 15 anos. Theo parte de São Paulo no encalço do filho, mas intempéries do destino fazem com que Pedro, mesmo tendo fugido a cavalo, esteja sempre à frente do pai, que o persegue de carro. O garoto vai deixando pelo caminho vestígios de sua passagem, pistas que são prontamente encontradas pelo pai. Theo procura pelo filho, porém nessa busca ele acaba encontrando é a si mesmo.

Como em todo road-movie, os pontos altos do filme são as situações e experiências que esse homem vai vivenciando pelo caminho. São pessoas e lugares simples, de um Brasil periférico, rural, genuíno, que não deixam o espectador desgrudar da tela. Theo vive momentos marcantes com um criador de cavalos, com a comunidade de uma favela, com uma família que mora numa balsa, num vilarejo rural, num canavial, num festival de rock em Mimoso, faz um parto à beira de um rio, leva algumas surras, é atropelado na rodovia .. mas ele não tem dúvida, nunca desiste, e segue se machucando, se despedaçando, para se reunificar no final.

O elenco é encabeçado por Wagner Moura, que protagoniza o filme de forma magistral da primeira à última cena (merece um parágrafo especial abaixo). Também cabe destacar as interpretações marcantes da experiente Mariana Lima – como Branca, a mãe linda e desesperada –, do novato Brás Antunes (filho de Arnaldo Antunes) – como Pedro, o adolescente fujão em seu cavalo preto – e do veterano Lima Duarte, numa participação pequena porém definitiva como o avô da história. O elenco de apoio – personagens que Theo encontra pelo caminho – também abusa de atuações excelentes. Reverencio a todos citando aqui apenas o nome de Abrahão Farc, um dos mais profícuos atores brasileiros de todos os tempos, falecido há 3 semanas, aos 75 anos, após 50 de carreira. Em A Busca, Abrahão faz um velho cardiopata e ranzinza, naturalmente hilário. Foi sua última e memorável aparição. Deixa muita saudade em toda uma geração de fãs ..

A película ainda conta com a excelente fotografia de Adrian Teijido, que se esmera nos enquadramentos bem construídos e brinca sem medo com o difícil recurso da contraluz. Dá muito certo. A montagem de Lucas Gonzaga é ágil, precisa, não deixa o filme perder o ritmo em momento algum. A produção de Andrea Barata Ribeiro e Bel Berlinck é de um zelo que deixa brilho nos olhos do expectador. A direção de arte de Marcelo Escañuela é sutil e eficaz, sem falar na direção musical caprichosa de Beto Villares, que abusa da ótima música instrumental brasileira para valorizar cada cena.  A trilha sonora, super eficiente, vai do folclore regional a Arnaldo Antunes, passado por Wagner .. e falando nisso ..

Wagner Moura pode não ser o ator brasileiro mais badalado do momento, mas não há dúvida que é, disparado, o melhor. Cada novo trabalho seu deixa público e crítica boquiabertos. Ele se decompõe e se reconstrói com a destreza de um camaleão pantera, dá vísceras a todos os personagens que encarna. E o que é mais louvável: sem afetações, sem virtuosismos, e dando aquela impressão de insustentável leveza do ser que não faz esforço algum pra ser ótimo. O bahiano é mesmo ótimo!

Muita Calma Nessa Hora é o novo longa de Felipe Joffily, filme nacional despretensioso cujo objetivo evidente é ser uma comédia popular voltada ao público jovem. O roteiro de Bruno Mazzeo, João Avelino e Rosana Ferrão abusa de clichês e estereótipos para desenvolver uma história divertida, com os requisitos necessários para agradar à juventude e se tornar um hit das férias. Tem o sabor de milhares de comédias jovens americanas, mas com um time de humoristas brasileiros que ajudam a torná-lo mais palatável, como o próprio Mazzeo numa participação minúscula, Débora Lamm, Lúcio Mauro, Lúcio Mauro Filho, Maria Clara Gueiros, Luís Miranda, Leandro Hassum, Marcos Mion, André Mattos, Hermes e Renato, Heloísa Périssé e até Sérgio Malandro .. tem até participação de Marcelo Tas (de peruca), Louise Cardoso e Laura Cardoso.

A história é apenas uma desculpa para muita gente bonita de biquini ou sunga, paquerando, dançando, bebendo e tendo relações diversas. Não dá para dizer que o roteiro é um primor, mas tem boas piadas que não soam requentadas pela experiência dos comediantes. Aliás, o nome do filme aparece de forma orgânica na boca de diversos personagens. Felipe Joffily, que vem de uma boa carreira na propaganda e já tinha feito um razoável sucesso com seu primeiro longa Ódiquê?, consegue construir um bom filme de gênero, com interferências gráficas que o deixam mais dinâmico. 

Paraísos Artificiais é o novo longa de Marcos Prado que fecha o sábado em Toronto. Como ainda não o vi, comento sobre ele numa próxima oportunidade.

Amanhã o Brazil Film Fest chega ao último dia com O Bandido da Luz Vermelha, Corações Sujos, Rio Anos 70 e o esperado show de encerramento com Pedro Luis. Estaremos aqui, comentando, criticando e curtindo junto com vocês esse mar de cores, sabores e dissabores que é o novo Cinema Brasileiro. Até lá.

.DarioPR

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