Machado de Assis

Cem anos depois o gênio se reinventa.

 Por Paula Mazulquim

Machado de Assis – Credit: Google

Você não teve que ler suas obras para o vestibular, não tem idade suficiente para se recordar do rosto estampado na cédula de mil Cruzados e não é viciado em sites de relacionamentos para participar de sua comunidade no Orkut com mais de 80 mil membros? Então pare tudo que está fazendo e aproveite as comemorações do centenário de morte de Joaquim Maria Machado de Assis – 29 de setembro – para resgatar o prazer da leitura e chegar mais perto de um dos grandes gênios da literatura Brasileira. Mas não se esqueça de desligar a televisão!

“Não dá para ler Machado de Assis assistindo TV”, ensina Ricardo Stenberg que há 29 anos ministra aulas de Literatura Comparada na pós graduação e de Literatura Brasileira e Portuguesa na graduação da Universidade de Toronto. De acordo com Ricardo, apesar da unânimidade dos estudantes em afirmar que não é fácil ler Machado, dá para fazer as pazes com o gênio. Basta começar pela obra certa. “Leia ‘Dom Casmurro’ desconsiderando as notas de rodapé”, diz Ricardo. O professor lembra que para uma leitura mais fácil, vale até baixar versões da Internet que normalmente não incluem as interrupções do texto original.

Não é à toa que “Dom Casmurro” é, juntamente com “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, uma das obras mais famosas de Machado de Assis. Mesmo que você nunca tenha lido nenhum livro do autor, são grandes as chances de que já tenha ouvido falar na polêmica em torno da traição de Capitu, a famosa personagem que já foi parar até em novela da TV Globo. Mais atual impossível. “Eu dividiria a atualidade de Machado em dois: a temática sempre presente do comportamento humano e a arte que se examina”, afirma Ricardo que, recentemente leu Machado de Assis pela primeira vez em inglês e se surpreendeu com a ‘violência’ no texto do autor que lhe saltou mais aos olhos no idioma de Shakeaspeare.

O professor brasileiro que ensina Machado de Assis também em inglês (oferecido pela primeira vez na Universidade de Toronto no ano letivo 2007/2008) teve a oportunidade de conhecer a norte-americana Helen Caldwell (1904-1987) que se apaixonou pela obra de Machado de Assis, estudou português para ler os originais e iniciou toda a polêmica em torno da traição de Capitu. “Nunca vamos saber se ela traiu ou não…até porque não interessa pois o livro não é sobre traição”, pondera Ricardo.

Por ter criado personagens tão complexos e que ainda geram dúvidas após tantas décadas, Ricardo acha que o prazer da leitura de um autor como Machado de Assis vem aos poucos. “Entender que as implicâncias presentes nos textos do autor têm um objetivo que não é o de irritar o leitor é o primeiro passo para se envolver com sua narrativa. Machado de Assis não é simples, ele usa de linguagem elegante para esconder a violência por trás de suas temáticas”, ensina.

Cem anos após sua morte Machado de Assis se reinventa por meio de seus temas universais e bem próximos da condição de ser humano. Afinal, imortal que se preze vai e volta no tempo sem cerimônia. E você? Já desligou a TV e está pronto para se envolver no mundo obscuro deste mulato de origem pobre que se tornou um dos grandes nomes da literatura Brasileira?

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