Mostra de cinema sabor bem Brasil

Cinema brasileiro quer cair no gosto do canadense.

Por Fátima Mesquita

O ano de 2007 deve ficar marcado para sempre na história da comunidade brasileira no Canadá porque vai ser o ano de lançamento da 1a. Mostra do Cinema Brasileiro no país. Em dezembro, quando o frio já estiver batendo às nossas portas, Toronto e Montreal vão ver a temperatura subir com a promessa de exibição de mais de dez títulos de peso do nosso cinema, além de muita badalação em torno de convidados especiais da mostra, como diretores, produtores, atores e técnicos brasileiros que devem vir participar do evento. A iniciativa pioneira partiu do Ministério das Relações Exteriores e do Consulado do Brasil em Toronto, e está sendo organizada pela ONG Jangada, que há dez anos marca o circuito cultural de Paris anualmente com um festival de cinema brasileiro. A Wave conversou sobre os eventos de Paris, Montreal e Toronto com a cineasta, agitadora cultural e fundadora da Jangada, Kátia Adler.

 Como a senhora foi parar na França e como se envolveu com a criação do hoje tradicional Festival de Cinema Brasileiro de Paris?
Kátia Adler – Eu sou do Rio de Janeiro e cheguei à França em 1984. E fiz, na Universidade Paris 8, o curso de cinema. Quando acabei o curso, comecei a fazer curtas. Meu primeiro curta se chama “Sem Cor” e foi uma co-produção entre Brasil e França. Mas depois acabei trabalhando muito para a televisão francesa. O festival surgiu quando eu estava muito afastada do meu país. Senti, então, a necessidade de defender o cinema brasileiro. Era talvez a minha maneira de voltar um pouco às minhas raízes.

 Hoje o Festival em Paris já está em sua décima edição. Como foi esse processo de crescimento? Quais foram as conquistas do festival?
Kátia Adler – O Festival em Paris começou pequeno, mas a evolução dele é nítida, tanto em termos de público quanto em termos do número e do peso dos profissionais que vêm do Brasil. Nessa última edição, mais de 20 pessoas vieram do Brasil defender seus filmes. Porque o nosso objetivo é promover o cinema brasileiro e também colocá-lo no mercado francês. E, todos os anos, o festival consegue vender filmes nossos para distribuidores franceses. Nós trabalhamos sempre com uma seleção de filmes recentes, do que há de mais novo no cinema brasileiro. São mais ou menos dez filmes em competição com um júri profissional francês escolhendo o “melhor filme”. Além disso, o público de Paris também elege seu “melhor filme”. E o prêmio é um troféu em forma de jangada, em bronze.

A organização do evento parisiense, assim como a do evento canadense, está a cargo da ONG Jangada, que é uma entidade sem fins lucrativos, que você dirige. Mas como surgiu a Jangada e quais são as atividades que ela vem desenvolvendo?
Kátia Adler – A Jangada foi criada por mim e alguns amigos para mostrar aos franceses um outro Brasil, para mostrar um país diferente daquele que era visto na televisão. A Jangada começou pequena, organizando eventos nas prefeituras. Nós também já trabalhamos para empresas francesas e hoje o nosso maior evento é o festival de Paris. Mas a Jangada organiza também outros eventos culturais. Nós organizamos, durante cinco anos, a Festa da Música Brasileira, junto com a Prefeitura do 3° arrondissement em Paris. Ou, por exemplo, uma exposição com obras da artista plástica Fayga Ostrower. Além disso, eu organizei durante dois anos uma Mostra de Cinema Brasileiro na Tunísia, que foi um grande sucesso. Também organizamos uma mostra do mesmo estilo na Guiana Francesa. E, agora mesmo, durante o Festival de Inverno de Ouro Preto (MG), fui convidada para ser curadora da Mostra de Documentários Brasileiros e fazer uma mesa redonda sobre a situação do documentário no Brasil.

Agora, a experiência de sucesso do festival parisiense vem agitar o Canadá. Como surgiu a idéia?
Kátia Adler – No ano passado, durante o Festival Internacional de Filme de Toronto, Sabrina Nudeliman, da distribuidora de filmes brasileira Elo Audiovisual, propôs ao Aldemo Garcia, vice-cônsul do Consulado Brasileiro em Toronto, fazer uma primeira edição de uma mostra de cinema brasileiro. O Aldemo achou uma excelente idéia e começou a trabalhar nesse sentido. A Sabrina me indicou para ser a produtora do evento pela experiência que tenho. O Aldemo me convidou para trabalhar com ele e, desde então, estamos nesta parceria junto com outras empresas brasileiras e o governo do nosso país. Nosso objetivo nessa primeira edição é mostrar os grandes filmes brasileiros. Mas também faremos rodadas de negócios entre brasileiros e canadenses, tentando assim abrir novas portas para co-produções.

Ainda estamos a alguns meses do evento, mas já é possível falar em datas, locais e lista de filmes a serem apresentados?
Kátia Adler – Já temos fechadas as datas e locais. A mostra acontecerá em Toronto, na sala Rotunda do Royal Ontario Museum (ROM), de 7 a 10 de dezembro e, em Montreal, de 14 a 20 de dezembro, no Cinéma Du Parc. É difícil anunciar títulos agora porque ainda estamos no processo de convidar filmes, mas talvez já possamos falar de Encontro com Milton Santos, documentário de Sílvio Tendler, e Antônia, de Tata Amaral. Também não temos ainda os atores, diretores e técnicos que virão, mas devemos contar com algo entre cinco e dez convidados do Brasil.

O Festival de Paris tem ajudado a quebrar o isolamento do cinema brasileiro. Que filmes foram negociados na Europa por causa do festival?
Kátia Adler – Por causa do festival de Paris vários títulos já foram vendidos e entraram no circuito de salas de cinema na França, ou foram vendidos para a televisão francesa. Alguns exemplos são Dona Flor e Seus Dois Maridos, Janela da Alma, Desmundo e, nessa última edição do festival, o documentário Vinicius. E eu tenho certeza que podemos repetir essa experiência de sucesso no Canadá.

Você esteve, alguns meses atrás, visitando Toronto e Montreal. O que achou do país, destas cidades e da comunidade brasileira residente nestas localidades?
Kátia Adler – Adorei o Canadá; adorei as pessoas, é uma mistura boa… Os canadenses são supersimpáticos. Tive pouco contato com a comunidade brasileira, mas espero encontrá-la durante o evento. Tenho certeza de que os brasileiros que moram no Canadá ficarão felizes com esse tipo de mostra. Vai ser uma boa ocasião de encontro da comunidade, exatamente como é em Paris, e também vai ser um lugar onde os canadenses poderão descobrir nossos filmes e nossa cultura.

O cinema brasileiro é multicor. Nós temos várias tendências e o cinema traduz o nosso cotidiano, nossas inquietudes, nossas buscas, nossa história. E como temos vários “Brasis”, fazemos filmes diferentes, em diferentes regiões de todo o Brasil. A produção hoje é de 50 longas por ano e esse número cresce a cada ano. Veja o exemplo do filme O ano que meus pais saíram de férias. Ele estava em competição no Festival de Berlin. Desde o Central do Brasil, o último filme brasileiro a ser premiado no Festival de Berlin, não havia nenhum representante do cinema brasileiro neste evento importante. No festival de Cannes, Mutum, que é o primeiro longa da carioca Sandra Kogut, fechou a Quinzaine dês Réalizateurs. E isso quer dizer que estamos, aos poucos, ganhando o mercado internacional.

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