Hora da faxina

No Brasil e no Canadá, vassouras viram ícone de luta contra a corrupção.

 Por Bianca Saia

 
Foi utilizando vassouras como símbolo que duas ONG’s – uma no Brasil, outra em Québec – expressaram o desejo urgente do povo em fazer a faxina na corrupção política.

Na madrugada do dia 19 de setembro do ano passado, 594 vassouras pintadas de verde-e-amarelo foram fincadas nas areias da praia de Copacabana. O número representa a quantidade de parlamentares eleitos no Congresso Nacional – 513 deputados federais e 81 senadores. A inusitada instalação trazia uma mensagem da ONG Rio de Paz: “Congresso Nacional, ajude a varrer a corrupção do Brasil”. A imagem, colorida e contundente, foi primeira página de alguns dos principais veículos da mídia brasileira e fez notícia em lugares tão distintos como Cuba, Iraque, Arábia Saudita e Letônia.

E porque uma ONG carioca que tem como missão o combate à violência decidiu promover uma ação contra a corrupção? Quem explica é Antônio Carlos Costa, líder do movimento: “O resultado final da corrupção são crianças na favela sem acesso à educação de qualidade ou áreas de lazer, morando em casas pobres, sem rede de água e esgoto, policiais recebendo mal, gente morrendo em filas de hospitais, desigualdade social. Na ponta, a corrupção é uma forma de homicídio”.

Enquanto isso, no Québec, vassouras também eram usadas como símbolo político pela ONG Génération d’Idées. Como conta Olivier Charest, advogado e porta-voz lusófono da ONG, “Nosso objetivo era pedir ao governo uma CPI para investigar e limpar a indústria da construção”. A situação precária de inúmeras obras públicas no Québec hoje vêm sido atribuída à décadas de ligação da indústria com a máfia, superfaturação e evidências de lavagem de dinheiro.

Pouco mais de um mês após a primeira manifestação brasileira, no dia 18 de outubro, era a vez do Québec acordar com sua própria instalação. A manifestação pacífica canadense, instalada em frente à Assembléia Nacional de Québec, exibia cones de construção e 250 vassouras. Cada uma delas foi inscrita com o nome de um deputado. E todas foram compradas pela Internet por cidadãos quebequenses ao custo de CAD$12,00 mais taxas. A ONG Génération d’Idées queria dessa forma oferecer ao povo uma maneira de participar do protesto, mesmo se à distância. A boa notícia veio dois dias depois, quando o primeiro-ministro da província, Jean Charest, anunciou a tão aguardada decisão de iniciar a comissão de inquérito.

Segundo Olivier Charest, a utilização do mesmo símbolo da vassoura pelas duas ONG’S parece ter sido pura coincidência. “Ficamos sabendo do protesto brasileiro através de uma reportagem num portal de Internet local onde o jornalista falou tanto do nosso projeto como o da ONG Rio de Paz. Começamos em seguida a trocar e-mails à ONG carioca, oferecendo apoio mútuo e mesmo a possibilidade de fazer uma troca de vassouras”.

E de fato, entre o mar de vassouras quebequenses – que foram instaladas artisticamente pelo grupo ativista Action Terroriste Socialement Acceptable – uma delas era verde-e-amarela. Uma maneira de mostrar o apoio ao movimento carioca.

O movimento brasileiro acabou tendo uma continuidade após um comentário do senador Pedro Simon (PMDB-RS), que em entrevista disse que gostaria que a ONG Rio de Paz levasse uma vassoura para ele em Brasília.

O pedido foi levado a sério, e no dia 28 de setembro, as 594 vassouras verde-e-amarelas foram instaladas no gramado da Esplanada dos Ministérios. Apenas 20 dessas vassouras acabaram nas mão dos senadores e deputados, entre eles, Pedro Simon.

Mas apesar da relutância da grande maioria dos políticos em aceitar o “presente”, Antônio Carlos Costa disse que a missão da ONG foi cumprida. “Conseguimos criar um fato político, constranger o poder público, passar uma mensagem que o povo brasileiro pobre possa entender, e criar um símbolo da marcha contra a corrupção no país”.

Ele também fala que recebeu com muita alegria a notícia da sincronicidade do movimento brasileiro e canadense. Antônio Carlos Costa reitera seu sonho de ver o povo no mundo inteiro lutando junto contra a corrupção – e sempre, à moda do Rio de Paz – de maneira pacífica.

http://youtu.be/sSzZ8jHlMdQ

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