A arte de Newton Moraes

Conheça um pouco mais da vida desse artista brasileiro no Canadá.Há 20 anos vivendo no Canadá, o gaúcho de Porto Alegre vem deixando sua marca na história da arte canadense, com a companhia de dança Newton Moares Dance Theatre, que acaba de completar 14 anos de serviços no meio artístico.

Newton Moraes, 49, é membro da Dance Ontario e Dance Umbrella of Ontario e foi o primeiro brasileiro a se juntar a School of Toronto Dance Theatre, uma das melhores escolas de dança do Canadá. Atualmente, Moraes atua não somente como bailarino, mas também como coreógrafo, diretor, pesquisador, professor e o que mais for necessário para realizar uma grande obra artística! Segundo ele, dança é a arte mais complexa de todas.

  Como surgiu a vontade de dançar?
Moraes: No Sul do Brasil dança-se muito samba, dança de salão e outras coisas. Através da minha religião, o Batuque, conheci a dança afro-brasileira. Mas a vontade de ser um bailarino profissional veio mais tarde, quando eu já tinha 24 anos e comecei a estudar balé e jazz no Ballet Phoenix, que era dirigido por Tony Seitz Petzhold, que foi uma das melhores bailarinas e coreográfas na história da dança brasileira.

Você foi o primeiro brasileiro que entrou para a School of Toronto Dance Theatre, uma das melhores escolas de dança do Canadá. Conte-nos um pouco sobre essa jornada do Brasil ao Canadá.
Moraes: Na mesma época que eu estava no Ballet Phoenix, conheci o meu parceiro de longa data, Robert Shirley, que infelizmente faleceu em 2008. Eu o chamava de Bob, ele era professor de antropologia em diversas universidades brasileiras, entre elas a de Porto Alegre. No Canadá, ele era membro da Universidade de Toronto. Foi idéia dele que eu viesse ao Canadá para aperfeiçoar meus estudos, já que em Porto Alegre, não tinha dança contemporânea. Então entrei para a School of Toronto Dance Theatre, que foi realmente essencial na minha carreira. Lá eu estudava mais de 10 horas por dia e logo no primeiro ano, fui um dos alunos convidados para dançar com a companhia em um evento no Harbourfront.

Após apenas 6 anos no Canadá, em 1997, você fundou a Newton Moraes Dance Theatre, que hoje é considerada uma das melhores escolas de dança contemporânea do país. Como explica esse sucesso?
Moraes: Tem dois motivos. O primeiro deles é o fato da dança brasileira ser muito respeitada no mundo, como exemplo temos o Grupo Corpo, de Belo Horizonte, a Cia de Dança Quasar, de Goiânia, o Cena 11, de Florianópolis, e o Balé da Cidade de São Paulo, que estão sempre viajando pelo mundo.

O Brasil é um exportador de dança!

O segundo motivo é que meus estudos são uma mescla das duas culturas, brasileira e canadense. A dança é muito presente na cultura canadense. Eu diria que o canadense não tem a mesma naturalidade do brasileiro, mas eles estudam seriamente e aprimorizam a dança. Então acredito que o sucesso é em função desses dois motivos, além da seriedade que dou ao meu trabalho. A minha companhia de dança ainda é pequena, mas já tem feito turnês não somente no Canadá, mas também nos EUA, Alemanha, Colômbia, Cuba e Brasil.

Quem são as pessoas que mais influenciaram na sua carreira, no seu modo de ver a dança? Quem são seus mentores?
Moraes: A minha relação com a dança é algo muito sério, ligado ao meu lado espiritual, então meu pai de santo, o Pai Beto, foi sem dúvida um grande influenciador na minha vida. No começo, sem dúvida nenhuma, Edison Garcia, Anette Lubisco e Tony Seitz Petzhold foram as pessoas que mais me influenciaram profissionalmente. No Canadá eu tive muitos mentores, mas David Earl foi um dos maiores. Atualmente, é o bailarino Jean Sasportes, da companhia de dança Pina Bausch, que na minha opinião é a melhor do mundo! Inclusive dá para conhecer um pouco mais sobre a obra dessa belíssima bailarina, que faleceu em 2009, no filme “Pina”, do cineasta alemão Wim Wenders, que foi recentemente exibido no TIFF – Toronto International Film Festival.

Ouvi dizer que você está tentando trazer o Jean Sasportes para uma visita a Toronto. Qual o seu objetivo?
Moraes: Meu objetivo é que o Jean Sasportes dê aulas na Newton Moraes Dance Theatre e quem sabe criarmos uma obra juntos. Mas para concretizar a vinda dele estou angariando fundos do Governo Canadense, do Consulado Brasileiro de Toronto e também estou procurando apoio de empresas brasileiras. Sempre recebo suporte do Toronto Arts Council e Canada Council for the Arts. Seria maravilhoso receber o Sasportes aqui!

Em uma entrevista ao jornal Toronto Star, você definiu seu estilo de dança como uma mistura de folclore e espiritualidade. Como é isso?
Moraes: Sim, para mim, a espitualidade é uma das essências da dança. Quando fizemos turnê no Brasil, levei todos os bailarinos aos centros afro-brasileiros, para que eles vissem o que é uma pessoa dançando possessa por um Orixá. É claro que não incentivo ninguém a se tornar “batuqueiro”, inclusive eu respeito todas as religiões, apenas tento mostrar o real significado da dança.

No ano passado você produziu o espetáculo “Saudades do Brasil”. Como é para você morar tanto tempo longe da nossa terra natal?
Moraes: Estou aqui há 20 anos, adoro o Canadá e incorporo muito as cores desse país. O vermelho representa amor e arte para mim. Mas eu sinto muita falta da nossa cultura e acho que eu sempre terei saudades do Brasil. Lá, as pessoas se abraçam mais e o sentido de espaço é menor. A maneira que os canadenses se expressam com o corpo é diferente da nossa. Uma outra coisa é o idioma, eu sinto que quando falo inglês, minha personalidade muda completamente.

Em 2010, você criou o espetáculo “Ihu”, uma homenagem ao seu parceiro Bob. O que significa “Ihu” e qual a mensagem desse espetáculo para o público?
Moraes: “Ihu” é uma palavra dos índios Kamayurá que significa todos os sons, ou seja, tudo o que alcança o ouvido, e isso inclui o sobrenatural, o som dos espíritos e das entidades mágicas das florestas. Trata-se de uma autobiografia sobre a vida antes, durante e depois do Bob.

Qual o seu ritmo de música preferido para as coreografias?
Moraes: Não tenho um ritmo preferido, tudo depende do tema da obra. Eu já fui DJ no Brasil, sei bem como mixar ritmos e é o que costumo fazer. Eu sou bem eclético, gosto de música clássica, barroca, samba e outros. Em “Ihu”, por exemplo, uso elementos da música afro-brasileira e música eletrônica. As vezes, uso uma poesia, como as do Mario Quintana, e faço uma releitura. Eu gosto de produzir as músicas para minhas obras! Já tive um DJ em cena fazendo o som ao vivo, já trabalhei com um compositor que fez músicas especialmente para minhas obras. Então, cada coreografica tem um estilo de música diferente, eu gosto de inovar!

Além de se apresentar com a Newton Moraes Dance Theatre, você também dá aulas no Bavia Arts e Ballet Creole.
Moraes: Sim, a minha companhia de dança tem apenas 8 bailarinos e trabalhamos por projetos. Além disso, usamos o espaço do Bavia Arts para ensinar jovens a dançar. Também ensino no Ballet Creole e em diversas escolas de Ontário.

Você estava fazendo pós-graduação na York University, concluiu o curso?
Moraes: Não, infelizmente tive que abandonar o curso. Depois de tantos anos de experiência no meio artístico, é difícil encontrar algo que realmente agregue à carreira. Infelizmente tive dois professores que não eram qualificados e tivemos um certo conflito. Então, no momento, estudo as obras de Jean Sasportes, que é meu atual mentor e tem muito a me ensinar. Tenho planos de continuar meus estudos em Amsterdam.

Qual o seu maior sonho?
Moraes: Sonho em ter um prédio, onde eu possa estabeler a escola de dança da Newton Moraes Dance Theatre, com várias salas, estúdios, palcos e biblioteca, para que possa deixar minha obrar disponível para pesquisa.

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