Danielle Lisboa

Maestrina e mãe em perfeito equilíbrio.

A paixão pela música clássica desde pequena levou a carioca Danielle Lisboa a realizar seu grande sonho – ser maestrina. Desde o fim de 2009, à frente de uma das maiores e mais antigas orquestras sinfônicas comunitárias do Canadá, a Orquestra Toronto, Danielle faz parte um seleto grupo de mulheres regentes no mundo.

Ela começou sua carreira profissional como pianista, dando aulas no Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro e na Kingswood Music School em Kingswood no Texas, Estados Unidos. Apesar de bastante jovem, ela é dona de um currículo espetacular, com passagens em diversas orquestras e doutorado em regência na renomada Eastman School of Music da Universidade de Rochester em Nova York. A maestrina brasileira é ainda mãe presente e apaixonada de Gabriella, cinco anos e Victor, quatro, além disso, é dona de casa ao estilo brasileiro (na mesa precisa ter sempre o tradicional arroz com feijão) e tem em seu marido, o também carioca Fábio, um grande incentivador e companheiro.

Brazilian Wave entrevistou Danielle na sede da Orquestra Toronto em North York e comprovou o carisma e o respeito que nossa brasileira de sucesso transmite aos seus músicos e a seu público.

Conte-nos um pouco do início de sua carreira.
Lisboa: Estudando, estudando… A gente ficava o dia inteiro praticando na Escola de Música, próxima ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro, só com uma barra de chocolate. Eu respirava música. Eu estava sempre no Municipal; tinha o Sérgio Barbado, uma pessoa que me ajudou muito no Brasil, ele era o diretor musical do Teatro Municipal e me abriu portas para reger em Brasília, e em muitos outros lugares.

Tudo começa em acreditar. Costumava ficar na galeria do Teatro Municipal olhando os ensaios e pensava, “um dia vou fazer isso também”. Falo isso com meus filhos, eles ainda são pequenos, mas para eles acreditarem que tudo é possível, para têrem um sonho. Isso minha mãe passou para mim. Tem que partir de um sonho e precisamos fazer as crianças acreditarem que elas podem sonhar alto.

‘Tudo começa em acreditar. Falo isso com meus filhos… eles podem sonhar alto”

Sua estréia como maestrina foi numa produção brasileira da ópera de Ernest Mahle, Maroquinhas Fru-Fru. Qual foi a sensação de conduzir uma ópera pela primeira vez?
Lisboa: Minha primeira regência foi um divisor de águas para mim. Se você rege ópera, você rege tudo! Tecnicamente falando, foi um avanço muito grande esse contato com ópera. A flexibilidade de esperar o cantor entrar, para então ouvir, acompanhar e adaptar ao que está acontecendo no palco. Eu era jovem naquela época, foi muito bonito.

Como é conciliar aqui no exterior, sua fantástica carreira com a maternidade?
Lisboa: Eu me sinto abençoada e falo isso de coração. Estou feliz, realizando meu sonho. Sempre quis reger, fazer o que estou fazendo agora. Porém, tenho certo na minha cabeça que minha prioridade é e sempre será a minha família. Sou mãe em primeiro lugar, gosto de levá-los à escola, fazer piqueniques e, quando é algo profissional, tenho muita sorte de poder trabalhar de casa, no meu computador. Meu marido também me apóia muito, existe um grande respeito. Nós somos aquela família tipicamente brasileira, tenho que fazer arroz, feijão, almoço, jantar, arrumar a casa…

“Minha família me dá minha base. Sei que estão ali.”

É mais fácil arrumar a casa ou reger uma orquestra?
Lisboa: (Risos) Eu acho que os músicos me obedecem, meus filhos não!

Qual a importância da música na vida de uma criança?
Lisboa: Legal essa pergunta. Olha, eu fiz uma palestra recentemente e apresentei um Power point com imagens de CAT Scans, tomografias cerebrais, mostrando como a gente reage como é o efeito emocional da música. Poucas coisas vão ativar tantas áreas no cérebro, coordenação, memória, quando você está tocando música. Então, é um bem enorme. Queria mostrar aos pais que estavam lá, o bem que estão fazendo aos filhos que estudam e ouvem música.

O que você sente quando está regendo?
Lisboa: Corpo e alma. Eu estou ali. Falo muito com meus músicos para termos o “eye contact”, eu vou tentar me inspirar para que eles façam música. Temos que ler mentes, brinco sempre dizendo; “you got to read my mind”, porque eu não estou ali tocando, estou conduzindo. Tenho que passar o que quero como vai emocionar. Transcende. Eu me comunico no olhar em cada músico, para que eles possam fazer um som que emocione a audiência. Tem que haver empatia, honestidade de saber a partitura. Não tem como explicar, é pura emoção. Chega em certos momentos de uma regência que a música vai ganhando força e quero ver cordas quebrando! É aí, nessa hora, que a gente sente essa transformação.

“Uma senhora uma vez me disse que nos momentos em que estava na platéia, à música a fez esquecer suas tristezas e que foi mágico. Era isso que eu precisava ouvir, trabalho para isso, para os momentos mágicos. Eu acredito que a música tem esse poder.”

Existe algum preconceito por você ser mulher e estrangeira?
Lisboa: A autoridade vem com o respeito. E ainda tem o fato de Toronto ser uma cidade multicultural, não me sinto diferente aqui.

Uma dica sua, como mãe e como maestrina da Orquestra Toronto. Como podemos introduzir mais música clássica na vida das crianças?
Lisboa: Levem seus filhos aos concertos. Não só aos concertos como o Children’s Concert, mas também nos da Orquestra Toronto, que é uma instituição que se abre para as famílias, nós queremos ver crianças na platéia. Nós entendemos que não podem ser produções longas; uma das viradas que demos nas temporadas passadas foi que dei preferência à peças mais curtas. No próximo Children’s Concert, em dezembro, vamos levar marionetes, palhaços para as crianças.

Uma mensagem.
Lisboa: Carreiras, postos e títulos vão e vem, tenho consciência disso, estou bem e muito feliz agora. Na medida em que você se sente satisfeita, não existe angústia, o que for para vir, virá. Saber as prioridades na vida, porque a minha, como já disse, é a minha família e sempre será.

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Orchestra Toronto

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